ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Dom Orlando Brandes 
O secularismo é o sinal mais característico dos nossos tempos, que começa no século 17 e culmina no século 20 com a morte de Deus e a exaltação do super-homem. Aí está a raiz dos dois totalitarismos e das duas guerras mundiais. A "revolução de 68" radicalizou a negação da dignidade humana. "Um filhote sadio de chipanzé vale mais que uma criança deficiente." O secularismo entrou na Igreja. Há, como diz o papa, uma "desumanização". Precisamos retornar à conversão, sem tal premissa a Nova Evangelização seria inútil. Que a Igreja evangelizadora, seja Igreja evangelizada.
Os novos evangelizadores devem ter uma fé reta, uma experiência, de fé vivida, celebrada, professada. A fé se alimenta na oração. O evangelizador deve ser discípulo permanente da arte da oração, senão a fé se debilita e caímos na tentação do sucedâneo. A oração permite ao evangelizador responder com sabedoria às grandes interrogações do coração humano.
A paixão pelo Senhor deve ser acompanhada pela paixão pelos homens e pelos pobres, a ponto de nos tornarmos últimos como os últimos da terra. Depois é necessária a "arte do diálogo" ecumênico, cultural, interreligioso.
Muitos de nossos agentes pastorais entraram na vida política e viraram as costas para a Igreja. Será que somos cristãos só por tradição e conveniência e sem convicção? A fé madura age por convicção. Não podemos pretender a conversão pastoral sem antes ter alcançado a conversão pessoal. Só assim será possível passar de uma pastoral conservadora para uma pastoral missionária, integrada na Igreja que é comunhão e participação, reflexo da comunhão trinitária. Assim a Igreja se torna atraente e aliciante.
A alegria da evangelização vem da contemplação. Enfrentamos três desafios para a Nova Evangelização: a) desafio da amizade entre fé e ciência para clarear a criação contínua da parte de Deus e da liberdade e razão do homem. Juntos precisamos discernir os desafios; b) o desafio da liberdade: priorizar a amizade de Deus com o homem, depois dar resposta às suas perguntas; e c) o desafio da fraternidade: a comunidade seja sacramento da amizade com deus e da amizade de Deus para com o mundo. Ter a esperança da comunhão.
O homem moderno é prisioneiro de um mundo que eliminou Deus. A Nova Evangelização consiste em restabelecer a necessidade de Deus e ajudar o homem a sair do "deserto interior". Para isso, não basta a ciência. Não são suficientes nossos documentos nem as nossas estruturas eclesiásticas. Elas não chegam ao coração do homem. O modo mais eficaz é falar da mensagem da divina misericórdia. Este discurso comove o coração imerso no pecado e na autossuficiência e ajuda procurar o sentido da vida e da esperança. O mundo voltará à paz se voltar à fonte da misericórdia. Cresce a sensibilidade humana por meio de uma abnegada misericórdia que comove as fibras mais profundas do coração humano. A devoção à divina misericórdia forma cristãos zelosos e responsáveis: "O coração fala ao coração". O coração de Deus misericordioso fala ao coração de homem.
A mídia apresenta o cristianismo como ideologia e emocionalmente cruel, deturpa a ética e a religião e alimenta simpatia por estilos de vida opostos ao cristianismo. Os santos padres foram mestres da retórica e conhecedores da comunicação social. Para a Igreja não basta ter suas próprias emissoras, mas pregar o mistério como remédio contra o espetáculo. A Igreja deve manter a estratégia do pequeno rebanho: as pequenas comunidades. A fé é bela, mas os conteúdos são difíceis. Somos inundados por uma série de dogmas. Estes dogmas sejam ensinados de tal modo a tocar o dia a dia dos homens e mulheres do nosso tempo.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
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