ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de outubro de 2013
Reginaldo José da Silva 
A população de Londrina divide espaço com aproximadamente 30 mil animais domésticos abandonados nas ruas e com cerca de 400 mil pombas amargosinhas. Para muitos, causas de problemas de saúde pública. Na verdade, não passam de consequências do comportamento humano despido de solidariedade.
Que esperar de alguém que falta com respeito pela própria espécie? A incapacidade de se ver no lugar do outro contribui para que resultados desastrosos ocorram na proteção ambiental de modo geral.
Muitos se dizem apaixonados por animais especialmente cães, gatos e aves. Não se pode duvidar dessa paixão, principalmente sob o contexto segundo o qual quanto mais apaixonado, menos racional o ser humano. Esse lado emocional é o principal responsável por se atribuir características humanas aos bichos de estimação. Se algumas delas levam a um ótimo comportamento em relação aos animais, um clássico exemplo dessa atribuição ocorre, de forma injusta, com o encantador pedreiro, arquiteto da floresta. É notória a crença popular em que o joão-de-barro, em um ataque de ciúme, mata sua companheira, construindo uma parede e mantendo-a presa até a morte. Não há qualquer sentido em aceitar essa crença. Não para pit bulls, cobras, nem joões-de-barro. Não por acaso não se vê nos programas policiais manchetes como: "João-de-barro, em ataque de ciúme, mata sua companheira com 72 facadas". Matar em nome de uma paixão é um comportamento da mais racional das espécies, mais inteligente, mais evoluída: o ser humano.
O auge da paixão humana em relação a seus pets pode ser exemplificado com a paixão pelas aves. Não raro, o melhor dos eufemismos para representar essa paixão é: símbolo da estupidez e da bestialidade humana. Um exercício simples pode facilitar a compreensão desse argumento. Imagine que a paixão da sua vida declare, agora, estar apaixonada por você? De repente, você passa a viver no seu novo lar doce lar, uma espécie de gaiola de três metros de comprimento por dois metros de largura. Mas não há razão para preocupação, pois em nome desse sentimento você receberá um ótimo tratamento uma vasilha com água, outra sempre com a mesma ração. Mais que isso, é tamanha a paixão que seus dejetos, suas fezes, urina e lixo produzidos serão recolhidos, uma vez por semana. Se a ave em questão for um pequeno pássaro, geralmente é retirada de seu ambiente natural, no qual possui um território de um hectare o equivalente a um campo de futebol, ou dez mil metros quadrados -, e passa a viver em uma gaiola de 40 centímetros por 25cm (a décima parte de 1m2).
Essas condições de higiene, de abrigo, abandono, omissão, estresse e mesmo de violência direta atingem os diversos animais domésticos. Aliás, maus-tratos alcançam a indústria do entretenimento (circos e rodeios), a cadeia de produção de alimentos, que reduz os animais a dois termos: proteína e dinheiro, o setor bioquímico e de cosméticos, que muitas vezes de forma desnecessária realiza testes cruéis em animais.
O consumismo e o egoísmo estão no centro da falta de solidariedade, essencial para a sobrevivência das espécies. E onde não há solidariedade sobra desigualdade econômica, social e ambiental. Apenas uma prefeitura nada solidária, encantada com o egoísmo, com os holofotes proporcionados pelas pombas, ignoraria a construção de um Centro de Zoonoses.
REGINALDO JOSÉ DA SILVA é biólogo pós-graduado em Análise Ambiental e policial militar em Londrina
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