ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Zuleika Camargo Leite de Toledo 
Esse é o título de um clássico da educação, escrito por Janusz Korczak (1878 1942), e expressa, com vigor e delicadeza, a necessidade de ver respeitado o direito da criança ser ela mesma, de viver o seu momento presente, já tão efêmero, sem medo de não conseguir ser o que os adultos desejam, em seus imaginários confusos e complexos, que se tornem.
Quando eu voltar a ser criança, na semana da criança, porque hoje eu sei que criança tem semana, eu vou pedir tempo. Vou pedir que o tempo volte e me leve para bem debaixo dos olhos dos meus avós, que atentos cuidavam do meu brincar na rua. Vou querer "me segurar" naquele olhar que acolhia e se encantava ao mesmo tempo, parecendo reviver a dádiva de uma infância já tão diferente da minha. Quero andar de charrete, jogar bola queimada, pular elástico, andar de bicicleta, nas calçadas, com meu irmão, de barra manteiga com as crianças que eu encontrava só nas férias.
Quando eu voltar a ser criança, vou olhar as pessoas como Deus as vê, meu coração vai se sentir seguro diante do perigo porque saberei que o amor de meus pais me amparará sempre. Vou voar ainda mais longe no mundo das fantasias, porque sei que os adultos estão na minha vida para ensinar como se constroem as raízes da felicidade. Nem vou passar meus dias buscando por ela, porque, os adultos me ensinarão que ela está dentro de mim, nas minhas escolhas, na minha capacidade de amar, não na minha habilidade de lucrar.
Quando eu voltar a ser criança, vou à escola, com certeza, mas já saberei que lá moram muitos conhecimentos. Alguns aprisionados em certificados importantes, mas sem significado para mim, simples criança querendo aprender brincando. Outros, no entanto, apaixonantes, desafiadores, estimulantes, que brotam das palavras, dos corpos em movimento, das perguntas do professor que vai me levar ao mundo dos adultos sem eu nem perceber. E eu sei que vou gostar!
Quando eu voltar a ser criança vou levar para escola, em minha mochila, apenas meus sonhos. Sonhos de ser grande sem deixar de ser criança. Vou procurar os donos das expectativas, dos sonhos não realizados, dos medos do futuro, das ansiedades frente às incertezas e vou devolver um a um. Quero só papel, lápis de cor e meu desejo de aprender, para mostrar a vida que cresce dentro de mim, respeitando o meu tempo, e que salta aos olhos de quem me ama e a quem eu amo.
Quando eu voltar a ser criança vou querer muito tempo, embrulhado em caixas bem grandes, coloridas e brilhantes, que durem de um aniversário ao outro, porque dentro delas haverá tempos de paz, tempos de amar, muitos tempos de brincar, tempos de compreender, porque assim nem será preciso perdoar. Na caixa estará todo o tempo de um abraço, de um afago gostoso num colo que mesmo cansado lá sempre estará. Terá também tempos de lágrimas, que sorriem e que choram, dependendo do que esperavam encontrar.
Quando eu voltar a ser criança vou querer aprender direitinho o que é respeito, para que eu me torne a cada dia uma versão melhorada de mim mesmo. E assim, quando a vida exigir que minha alma acompanhe o corpo amadurecido, vou brincar com o tempo, que me permite ser criança....porque nada desse mundo é mais forte que a capacidade de amar e sonhar como uma delas.
ZULEIKA CAMARGO LEITE DE TOLEDO é pedagoga, orientadora educacional, pesquisadora sobre comportamento humano, docente do ensino superior e supervisora de ensino em Londrina
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