A atual polêmica em torno da construção da subestação da Copel e instalação de 23 superpostes em alguns bairros das zonas sul e oeste de Londrina demonstra mais uma vez como determinadas leis são deixadas de lado em nossa sociedade. Qual a necessidade da subestação da Copel naquele local? O aumento da demanda é uma explicação se observarmos que esse crescimento está associado ao intenso processo de verticalização que tomou a Gleba Palhano nos últimos 15 anos. Onde havia poucas moradias, agora são centenas, milhares, devido o grau de adensamento desse espaço urbano que se tornou hoje num dos espaços mais valorizados de nossa cidade. Tal fato pode ser constatado pela mídia que propaga diariamente os novos lançamentos.
Todo projeto viável necessita de uma infraestrutura futura. Imaginem esse setor da cidade sofrendo com racionamento de energia. É uma necessidade da cidade que precisa ser atendida. Mas, qual a razão da subestação naquele lugar, comprometendo o aterro do Igapó que é um dos poucos espaços de lazer de Londrina, uma cidade extremamente carente de áreas desse tipo? Será possível soltar pipa no aterro com fios de 138 mil volts? Por que não fizeram a subestação próxima à PR-445? Não supriria a região da mesma forma? Neste caso, a ligação com a subestação do Jardim Bandeirantes poderia ocorrer pela própria rodovia e pelo canteiro central da Avenida Arthur Thomas. Muito mais seguro que atravessar bairros residenciais e expor moradores, escolas e a população de modo geral aos riscos de ter 138 mil volts constantemente sobre esses locais.
Tais questionamentos poderiam ter sido respondidos se fosse respeitado o Estatuto da Cidade, lei 10.257 de 2001, que diz em seu artigo 2º, XIII, sobre as diretrizes gerais da política urbana: "Audiência do poder público municipal e da população interessada nos processos de implantação de empreendimentos ou atividades com efeitos potencialmente negativos sobre o meio ambiente natural ou construído, o conforto ou a segurança da população". O presidente da Copel se sentiria seguro morando sob 138 mil volts? E o artigo 36º da mesma, sobre a necessidade do Estudo de Impacto de Vizinhança para projeto tanto público ou privado e seu parágrafo único que diz da necessidade de dar publicidade a tais documentos. Tudo indica que o EIV não foi elaborado e que a obra da subestação apareceu da noite para o dia assim como os superpostes.
Mas tudo fica ainda pior quando a Copel anuncia que apenas o traçado dos postes da Gleba Palhano será modificado, segregando assim os outros bairros "menos nobres". O que mostra que temos uma diferenciação de tratamento voltado à população envolvida. Isso não fere a Constituição Federal? Como a Copel determinou isso em tão pouco tempo? Quais os estudos para essa decisão? A Copel está a serviço da sociedade ou vice-versa? Ou seja, apenas os moradores dos demais bairros arcarão com os impactos negativos do empreendimento da Copel, incluindo a desvalorização de suas residências. Já a Gleba Palhano continuará ilesa em seu permanente projeto imobiliário.
Mas ainda existem outros riscos: há poucos dias um vento de mais de 100 km/h atingiu Londrina causando imensos danos. Cinco torres de alta tensão caíram na zona rural entre Londrina e Ibiporã. E se uma tempestade dessa atingisse os superpostes da Copel? Eles resistiriam? Mesmo com ventos mais fortes? A mesma pergunta serve relacionada aos veículos, principalmente caminhões, que podem vir a colidir com os ditos postes em uma cidade tomada diariamente por acidentes de trânsito.

FÁBIO CÉSAR ALVES DA CUNHA é geógrafo e professor do departamento de Geociências da Universidade Estadual de Londrina

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