ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
Ricardo Alexius 
Apesar de exaustivamente debatido neste espaço nos últimos dias, o assunto ainda gera polêmicas e, ao que parece, deve ainda gerar intempestivos debates. Porém, quando tudo e todos estiverem em seus devidos lugares, a elite corporativista de plantão estará sossegando o facho e os elogios serão modestos.
Diuturnamente se veem nos jornais manifestações mal justificadas em desrespeito a esses profissionais, responsáveis pelos melhores índices de saúde do continente, tachando-os de incompetentes fora da lei ou então de escravos.
Comentários irados de advogados que procuram colocar em dúvida a formação dos médicos cubanos, sugerindo, pasmem, que seja divulgado o histórico escolar de cada um! Quem garante, cidadão brasileiro, que você pode confiar cegamente na formação de todos os médicos da sua nação? E se cada paciente exigisse ver o histórico escolar do médico que o atende num plantão? Poderia ser trágico, não fosse cômico.
Jornalistas dizendo que os médicos têm "cara de empregada doméstica"! Observação duplamente discriminatória. Professores universitários comparando os médicos caribenhos com cortadores de cana, preocupados com a necessidade de matar ou não um médico cubano que estivesse "em fuga em um pequeno barco". Hilário!
A já decadente revista Veja, em 1999, elogiava a vinda de médicos cubanos para melhorar o atendimento no País (durante a catastrófica gestão de Serra como ministro da Saúde), mas hoje a revista se refere aos profissionais como "escravos de jaleco".
O fato é que este barafustar da grande ala elitizada da medicina nada mais é do que o temor dos corporativistas, de que o foco na prevenção abale a mercantilização da saúde. Trocando em miúdos, é o medo de que a prevenção e a educação prejudiquem o modelo do atendimento privado e da indústria alopática.
Em 2005, o governador de Tocantins recorreu a um convênio com Cuba, pois não conseguia médicos para os seus pequenos e afastados municípios. Viu o quadro de saúde mudar rapidamente com a presença de apenas uma centena de profissionais daquele país. As entidades médicas de Tocantins só descansaram quando obtiveram uma liminar de um juiz de primeira instância determinando em 2007 a imediata "expulsão" dos médicos cubanos.
De acordo com pesquisa encomendada pelo Conselho Federal de Medicina, se a média nacional é de 1,95 médicos para cada mil habitantes, no Distrito Federal esse número chega a 4,02 médicos por mil habitantes, seguido pelo Estado do Rio de Janeiro (3,57). No extremo oposto, porém, Estados como Amapá, Pará e Maranhão registram menos de um médico para mil habitantes. Cuba tem um médico para cada 148 habitantes, distribuídos por todos os rincões do país.
Os quase 13 mil médicos formados anualmente no Brasil não estão nem preparados, nem motivados para atender às populações dos grotões. E não estão por que não se habituaram à rotina da medicina preventiva e não aprenderam como atender sem as parafernálias tecnológicas de que se tornaram dependentes.
Em nota ameaçadora, o CFM afirma claramente que confiar populações periféricas aos cuidados de médicos cubanos é submetê-las a profissionais não qualificados. Não é isso que consta dos números da Organização Mundial de Saúde. Graças a sua medicina preventiva, a ilha do Caribe tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América e do terceiro mundo 4,9 por mil (contra 60 por mil em 1959, quando do triunfo da revolução).
Essa taxa é inferior à do Canadá e dos Estados Unidos. Da mesma forma, a expectativa de vida dos cubanos 78,8 anos (contra 60 anos em 1959) é comparável à das nações mais desenvolvidas do mundo.
A explicação para os êxitos inevitáveis do modelo adotado na ilha é muito simples: a priorização à prevenção e à educação para a saúde, o que reduz não apenas os índices de enfermidades, mas principalmente a necessidade de atendimento e os custos com a saúde.
RICARDO ALEXIUS é especialista em Ciências e Educação Ambiental em Medianeira
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