ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Luciano Ferreira Rodrigues Filho 
Hospital de Saúde Mental, ala B, nesses corredores de odor forte, característica de uma instituição pública, revelam-se vidas com histórias marcantes. Entre violas e cantigas, palitos e colas, telas e pinturas, nessa conjuntura percebemos a complexidade desses que vivem com o vício. Álcool e drogas, ou melhor, a droga - crack - não se obtém a cura em charlas, dizem que é uma fuga do ser ou a busca pelo objeto faltante, talvez seja, mas não acredito.
Essas vidas envolvidas pelo vício mostram o tamanho da malha da complexidade. Se fosse por fuga, fácil seria acharmos a saída. Se fosse um objeto faltante, substituiríamos. Se fosse família desestruturada, encontraríamos um modo de estruturar ou amenizar. O vício não se extermina atacando micropontos, como uma pílula destinada ao pâncreas.
Nos dias de trabalho no hospital, entre reuniões, conversas e estudos, pode-se afirmar com toda convicção que o vício ou os viciados não podem ser jogados de instituição para instituição do hospital de saúde mental para o Centro de Atenção Psicossocial (Caps), posto de saúde para o departamento de polícia e vice-versa - tampouco com internações compulsórias ou em reuniões de lideranças públicas encontrar um culpado. Pelo contrário, o trabalho envolvendo esses pacientes deve ser unificado: profissionais e instituições com responsabilidade compartilhada, isso envolve a sociedade, instituições privadas e públicas e governo.
Em nossos dias, buscam-se freneticamente culpados e errados na tentativa de abrandar a nossa parcela de responsabilidade. Parece-nos fácil questionar e problematizar o outro, queremos viver dentro de uma bolha impermeável, deixando para fora todos os problemas sociais. Para isso, nos escondemos dentro de muros, fechamos nossas portas, criamos condomínios, temos a nossa própria rede de relacionamentos (virtual), enfim, nos fechamos dentro de nossas próprias vidas, em uma solidão profunda.
Quando não se consegue deixar de ter contato com o feio, sujo e louco preferimos esconder debaixo dos tapetes: escondemos um hospital de saúde mental nos bairros afastados, colocamos nossos velhinhos numa rua sem saída, escondemos nossos "loucos" em casas maquiadas, colocamos nossos drogaditos a quilômetros de distância (fazenda de reabilitação).
Em "Bem-vindo ao deserto do real!", o psicanalista esloveno Slavoj Zizek aponta sobre nossas particularidades escondidas em um mundo virtual, criado conforme nossa eterna fantasia de felicidade, fugindo de toda catástrofe do mundo em que vivemos. Para isso, o autor faz uma comparação com o 11 de setembro, na qual, os americanos viviam na fantasia de um país seguro, feliz, potente. E com o ataque ao World Trade Center (WTC) revela-se um país frágil, inseguro e triste. Dá-se fim à segurança americana, ao sonho americano. Nesse fato, Zizek aponta para essa vida fantasiada pelos americanos fingindo que uma possível catástrofe só poderia ser real nos filmes hollywoodianos.
Com essa passagem de Zizek, faço um convite: vamos sair de nossos casulos, deixar de viver uma vida inventada, virtualizada. Cumprir com nossas responsabilidades sociais, deixar de procurar culpados e encontrar medidas para uma sociedade mais humana. Para você que abriu os olhos agora, lhe digo: bem-vindo ao deserto do real!
LUCIANO FERREIRA RODRIGUES FILHO é mestrando em Psicologia Social pela PUC/SP e psicólogo em Jacarezinho
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