ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Vívian Marques 
Temos na cultura brasileira o hábito de resolver os problemas quando já estão no limite. Não investimos em prevenção, o planejamento não é nosso ponto mais forte. No entanto, somos um país em ascensão e em desenvolvimento, e precisamos rapidamente mudar esta atitude. Sabe-se que a prevenção é o melhor remédio para os graves problemas. Os novos programas de saúde buscam investir neste ponto, no entanto, ainda estamos longe de ser uma sociedade baseada na prevenção.
Atualmente, no Brasil, 23 milhões de pessoas (12% da população) necessitam de atendimento em saúde mental. Pelo menos 5 milhões de brasileiros (3% da população) sofrem com transtornos mentais graves e persistentes. Em todo o mundo, mais de 400 milhões de pessoas são afetadas por distúrbios mentais. Os problemas de saúde mental ocupam cinco posições no ranking das dez principais causas de incapacidade, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mesmo diante de números alarmantes, ainda não damos o devido valor para nossa vida psíquica.
Pesquisas internacionais comprovam que grande parte desses distúrbios poderiam ser evitados se houver a atenção necessária ainda na infância ou até mesmo durante os primeiros meses de vida. No Brasil, as pesquisas são recentes, mas em países como a França, a atenção ao psiquismo do bebê é tão importante quanto o cuidado físico.
Profissionais da USP validaram um instrumento de Indicadores de Risco para o Desenvolvimento Infantil (Pesquisa IRDI) para ser utilizado na atenção básica de saúde com bebês de 0 a 18 meses. Este instrumento é resultado de uma pesquisa multicêntrica que visa a prevenção em saúde mental e pode ser aplicado por profissionais da área da saúde.
Os estudos da neurociência mostram que os vínculos e as experiências vividas nos primeiros anos de vida modelam os circuitos neuronais e preparam o cérebro para o desenvolvimento cognitivo, da linguagem, social e afetivo. Assim as experiências vividas no período neonatal podem alterar o processo de desenvolvimento do sistema nervoso.
A prevenção visa evitar ou remover fatores de risco ou causais antes que se desenvolva o mecanismo patológico que levará a problemas graves ou intercorrências no desenvolvimento.
O autismo, que agora está sendo bastante divulgado pelos grandes canais de comunicação, é um transtorno que pode ser detectado ainda nos primeiros anos de vida. Centros de pesquisas, como o Pre-Aut e Centre Alfred Binet, comprovam que quanto mais cedo a intervenção tiver início, maiores são as possibilidades da crianças se desenvolver e ter uma vida autônoma.
Precisamos tornar a intervenção precoce acessível para a população e capacitar os profissionais de saúde e educação para termos no futuro uma sociedade mais equilibrada e saudável.
Gostaria de ressaltar que o objetivo é potencializar a saúde e o desenvolvimento, é preciso zelar para não "patologizar" todos os sinais de uma criança. No mundo globalizado e de fácil acesso às informações, tudo entra em moda, inclusive as doenças. Espero que possamos ter o cuidado de não transformar todas as crianças que correm em hiperativas e todos os bebês que movimentem suas mãozinhas em autistas.
Há tantos saberes e tantas ciências que muitas vezes falta espaço para o "natural", o intuitivo. É extremamente positivo que um bebê e sua mãe possam ser acompanhados de perto por olhares multiprofissionais, mas não podemos sufocar os personagens principais dessa relação. É preciso saber escutar os pais e os filhos.
VÍVIAN MARQUES é psicóloga clínica, mestre em psicanálise e psicopatologia em Londrina
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres (55 linhas) e no mínimo 1.600 caracteres (25 linhas). Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br


