ESPAÇO ABERTO
O carro
No tarô de Marselha há uma carta que se chama O carro. É a imagem de um jovem dirigindo uma carruagem com dois cavalos de cores diferentes. Segundo os místicos, o cavalo vermelho representa o corpo físico, enquanto o cavalo azul representa o corpo espiritual. Deixando de lado os significados místicos que muitos dão ao tarô, podemos pensar nessa carta sob um olhar psicanalítico. O tarô não precisa ser entendido como algo mágico que prevê o futuro e mostra quem vai ser seu mais novo amor. As cartas podem ser interpretadas como contando uma verdade do psiquismo. Na Idade Média, quando esse tarô foi criado, não existia psicanálise, psicologia e ciências tais, de modo que a investigação da mente era identificada como feitiçaria. Era inadequado e perigoso, naquela época, investigar o próprio pensamento, muitos foram parar nas fogueiras por causa disso. O pensamento era controlado.
Voltando para O carro, podemos entender esse cavalo vermelho como nossas emoções mais básicas e primitivas, aquilo que nos inflama e que são nossos impulsos que às vezes nos leva a fazer besteiras. Já o cavalo azul pode ser entendido como a razão que nos faz refletir e pensar antes de qualquer atitude, é se conter e não se entregar cegamente aos impulsos. Na nossa vida mental temos então esses dois cavalos, emoções e razão, e não havendo um bom equilíbrio entre eles a carruagem (nossas vidas) podem tombar. Uma carruagem deve ser bem guiada, principalmente quando há dois cavalos. É necessário eles trabalharem conjuntamente, senão há riscos. Nossas vidas devem ser bem vividas e o equilíbrio é o que permite isso. Se entregar, sem qualquer restrição, a tudo que sentimos pode ser perigoso. Nos cega para ver a realidade e impede nos preservarmos. Porém, viver controlando todas as emoções rigidamente é se impedir de sentir o gosto pela vida, ficamos desumanos e frios. Mas quando podemos usar das emoções e razão de forma harmônica criamos a possibilidade de nos guiar bem na vida e tirar dela o que há de melhor.
SYLVIO DO AMARAL SCHREINER é psicoterapeuta em Londrina
Atitudes e administração
Não é sem porque que na palavra administração está intrínseco o ato de agir. Ação com o intuito de se tomar atitudes. E muitas ações que tomamos refletem um pouco do que somos e o ambiente que vivemos. Como quando nos educamos. E no caminho de administrar não é incomum termos que mudar nossas opiniões e atitudes por já não se adequarem mais as antigas ou aquelas que se pretendia anteriormente. A imprensa noticiou a mudança de planos que a China está tomando em função das novas perspectivas de desenvolvimento que o mundo vem apresentando e as consequências agregadas desses planos para os demais países, inclusive o Brasil, que poderá diminuir o volume de alguns produtos exportados, como o minério de ferro, para aquele país.
Mas existem ações que patrões tomam e muitas vezes deixam em dúvida sua correta capacidade de administrar. Atitudes mesquinhas que só ajudam a tumultuar um ambiente. Já vi exemplo de patrões que propositalmente deixam sujo um ambiente para provar que um empregado não está fazendo serviço corretamente e ter um meio de puni-lo. Será que essa é a melhor atitude? Não seria mais razoável mostrar ao empregado onde ele por descuido esqueceu de limpar? Isso não seria uma atitude cooperativa de quem vive em um mesmo ambiente?
Pode-se extrapolar essas atitudes para ambientes maiores. Nos anos de 1980 lembro-me de uma bomba que explodiu no Riocentro dentro de um carro com dois oficiais. Fato amplamente divulgado na época. Pior do que colocar sujeira propositalmente num ambiente para mostrar aos outros funcionários que uma pessoa não está fazendo o serviço correto, é fazer coisas erradas sigilosamente e em proporções enormes para causar impacto social e se firmar tiranicamente como um modelo de gestor. O povo já deu seu recado com as recentes manifestações populares e governos não são cegos de quererem não entender. Pois no fim, se erros são cometidos inadvertidamente podem ser consertados se a tempo reconhecê-los.
MAURICIO KALAU GONZALES é administrador de empresas e professor em Londrina
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