O Brasil vive a euforia dos grandes eventos esportivos que sediará nos próximos anos. Embora inexpressivo em termos de resultados, com exceção do futebol, nos tornamos centro das atenções ao nos elegermos sede dos Jogos Olímpicos de 2016, que serão disputados pela primeira vez em terras sul-americanas, tendo por cenário a Cidade Maravilhosa.
Sabemos, contudo, que a nação que sedia as Olimpíadas, obrigatoriamente tem que participar de todas as modalidades oferecidas, em torno de 30, algumas que são desconectadas da nossa cultura e não têm o menor apelo entre a nossa população, além daquelas que são extremamente elitizadas e abrangem um número irrisório de praticantes em terras tupiniquins. A situação piora quando constatamos que menos de um por cento dos desportistas nacionais são qualificados como atletas de alto rendimento, ou seja, que atingiram uma pontuação no ranking da modalidade que praticam que os classificam para participar da competição nesse nível.
Considerando que os gastos para a realização das Olimpíadas, proporcionalmente, serão tão vultosos quanto já se gastou e ainda se gastará com a Copa do Mundo, teremos que repetir a pergunta: qual será o real benefício que esse investimento deixará para a população brasileira? Esperamos que seja mais do que a "alegria de ter realizado", conforme respondeu o ministro Aldo Rebelo (Esportes) quando questionado da mesma maneira sobre os benefícios da realização da copa. Talvez, o ministro tenha razão e tenhamos mesmo embarcado no trem da alegria ao nos tornarmos sede das Olimpíadas.
Basta lembramos que o número de medalhas que colecionamos ao longo da história da participação nos jogos não conta mais do que o total arrebatado por alguns países em apenas uma edição. É desolador saber que o desempenho do Brasil em termos de medalhas se equipara ao do Quênia, que está entre os países de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), mas tem os melhores atletas fundistas e meio fundistas do mundo.
Não temos tradição em esportes e falta-nos investimentos na formação de atletas em todos os níveis, desde a formação de base até o alto rendimento. Nossos poucos nomes atletas olímpicos são, na maioria, pessoas imbuídas de determinação pessoal e não fruto de programas institucionais voltados para o fomento do esporte. O que temos é uma política desportiva atrasada, autoritária e corrupta que alimenta um sistema de gestão falido, centrado nas federações esportivas nos Estados e nas confederações em nível nacional. Regidas por uma constituição própria, verdadeiros resquícios do período da ditadura, os estatutos dessas entidades abrem espaços para mandatos eternos, eleições indiretas por meio de um colégio eleitoral restrito a alguns representantes – diga-se de passagem, de outras entidades tão questionáveis quanto elas - em detrimento de uma maioria diretamente interessada. Frequentemente presididas por "caras de pau", que não se envergonham de fazer proselitismo sobre esporte, ética e educação, as federações possuem sistemas próprios de fiscalização e controle, cujos membros, não raro, são comprometidos com o poder central e em verdade atuam apenas para escamotear contas fraudulentas. São entidades legais, mas imorais, muitas vezes alvos de investigações evolvendo suspeitas de má gestão de recursos oriundos de fontes públicas, seja da esfera federal, estadual ou municipal, atitudes discriminatórias e perseguições contra dirigentes, atletas e opositores.
Nesse cenário caótico, certamente, veremos os recursos que poderiam ser destinados para investimentos em saúde pública, educação e segurança, prioridade em qualquer governo, escorrerem pelas azinhagas das arenas esportivas.

JAIR QUEIROZ é pós-graduado em Segurança Pública em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res (55 li­nhas) e no mí­ni­mo 1.600 ca­rac­te­res (25 li­nhas). Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­saria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

mockup