ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de agosto de 2013
Manuel Joaquim R. dos Santos 
As pegadas do bispo de Roma no Rio ficarão gravadas na calçada da memória dos que, correndo dos ídolos enganosos do apenas possuir, buscam a essência da vida. Irradia sorrisos puros e simples, beirando o escandalosamente real. E é nisso que ele atrai. Católicos, ateus, homens apenas! Todos abrem o coração à novidade que Francisco lhes apresenta. A vida é muito simples, diz o papa! O coração é o centro! Dali que sai tudo! A ganância é destruidora. O homem deve ser otimista e portador de esperança. O cristão, seguidor e apaixonado pelo mestre Jesus Cristo, deve ser um provocador de mudanças e agitações que gerem vida em abundância.
Francisco cativa. Sua disposição e sua capacidade física fascinam e admiram! Ele vai à frente, ele quebra protocolos! Sai correndo para os alambrados repletos de admiradores! Acena para todos sem exceção e a todos brinda com um sorriso aberto e jovial. Ele é o líder, o pastor. O jesuíta com espírito franciscano mostra nessa sua primeira viagem o significado do nome escolhido. Declina privilégios, recusa deferências e aponta caminhos de sobriedade e pobreza geradores da verdadeira riqueza que salva o ser humano. Choca-se ontologicamente com os governantes de plantão e sem ser petulante ou deselegante os questiona. Tenta mostrar com caridade e respeito o caminho da probidade e da ética. Os brasileiros exploram nas redes sociais as diferenças entre eles e ovacionam o papa pelo testemunho oportuno.
Mas o script de Francisco é de modo especial para a sua Igreja. Ele não busca a priori converter ninguém e muito menos trazer os católicos de volta! Nisso ele é bem ecumênico e abomina o proselitismo. O papa quer arrumar a casa para que ela seja sempre o sacramento de salvação, o fermento na massa! A demasiada estruturação e institucionalização da mesma a afastou de sua missão e dos homens e afugentou os fiéis. Uma Igreja pobre, acolhedora, humilde e que busque a verdade de Jesus é um sinal visível de salvação para o homem hodierno que procura algo substancial que o satisfaça. A Igreja de Francisco será minoria num futuro próximo, mas deverá recomeçar quantas vezes forem necessárias. Saberá encontrar o lugar ao sol neste país laico e continuará dando testemunho dos valores do Evangelho. O Brasil poderá não ser mais um "país católico", mas deve fazer jus ao fato de ser uma nação alicerçada em valores humanos e universais semeados aqui por muitos cristãos, no passado e no presente. A Igreja Católica do papa Francisco é em última análise a Igreja de Jesus Cristo. Os papas passam, mas Ele fica para sempre.
Francisco herdou uma instituição que ainda respirava ares de "cristandade". Apesar do Vaticano 2º que a maioria dos batizados desconhece faltou a execução com coragem, do programa enunciado nos inúmeros documentos desse concílio. Os papas anteriores foram gigantes a sua maneira. Mas não conseguiram levar adiante as reformas adequadas ou foram atropelados pela avalanche de mudanças culturais. O papa argentino tão pouco o conseguirá sozinho ou em curto prazo, mas são visíveis os alicerces de uma construção sólida e oportuna. Essa chamada reforma passará pela estrutura arcaica da Cúria Romana, mas continuará pela formação dos futuros padres e por um modus operandi que interpele o ser humano, e lhe apresente o ideal de Jesus Cristo, seguido numa família de irmãos embalados pela fé, pelo amor e pela esperança. Sendo assim, a busca desesperada da quantidade, dará lugar a um empenho de presença no mundo através do testemunho. Essa reforma não será então mais do que a atualização pura e simples do mandato de Jesus.
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina
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