As pegadas do bispo de Roma no Rio ficarão gravadas na calçada da memória dos que, correndo dos ídolos enganosos do apenas possuir, buscam a essência da vida. Irradia sorrisos puros e simples, beirando o escandalosamente real. E é nisso que ele atrai. Católicos, ateus, homens apenas! Todos abrem o coração à novidade que Francisco lhes apresenta. A vida é muito simples, diz o papa! O coração é o centro! Dali que sai tudo! A ganância é destruidora. O homem deve ser otimista e portador de esperança. O cristão, seguidor e apaixonado pelo mestre Jesus Cristo, deve ser um provocador de mudanças e agitações que gerem vida em abundância.
Francisco cativa. Sua disposição e sua capacidade física fascinam e admiram! Ele vai à frente, ele quebra protocolos! Sai correndo para os alambrados repletos de admiradores! Acena para todos sem exceção e a todos brinda com um sorriso aberto e jovial. Ele é o líder, o pastor. O jesuíta com espírito franciscano mostra nessa sua primeira viagem o significado do nome escolhido. Declina privilégios, recusa deferências e aponta caminhos de sobriedade e pobreza geradores da verdadeira riqueza que salva o ser humano. Choca-se ontologicamente com os governantes de plantão e sem ser petulante ou deselegante os questiona. Tenta mostrar com caridade e respeito o caminho da probidade e da ética. Os brasileiros exploram nas redes sociais as diferenças entre eles e ovacionam o papa pelo testemunho oportuno.
Mas o script de Francisco é de modo especial para a sua Igreja. Ele não busca a priori converter ninguém e muito menos trazer os católicos de volta! Nisso ele é bem ecumênico e abomina o proselitismo. O papa quer arrumar a casa para que ela seja sempre o sacramento de salvação, o fermento na massa! A demasiada estruturação e institucionalização da mesma a afastou de sua missão e dos homens e afugentou os fiéis. Uma Igreja pobre, acolhedora, humilde e que busque a verdade de Jesus é um sinal visível de salvação para o homem hodierno que procura algo substancial que o satisfaça. A Igreja de Francisco será minoria num futuro próximo, mas deverá recomeçar quantas vezes forem necessárias. Saberá encontrar o lugar ao sol neste país laico e continuará dando testemunho dos valores do Evangelho. O Brasil poderá não ser mais um "país católico", mas deve fazer jus ao fato de ser uma nação alicerçada em valores humanos e universais semeados aqui por muitos cristãos, no passado e no presente. A Igreja Católica do papa Francisco é em última análise a Igreja de Jesus Cristo. Os papas passam, mas Ele fica para sempre.
Francisco herdou uma instituição que ainda respirava ares de "cristandade". Apesar do Vaticano 2º – que a maioria dos batizados desconhece – faltou a execução com coragem, do programa enunciado nos inúmeros documentos desse concílio. Os papas anteriores foram gigantes a sua maneira. Mas não conseguiram levar adiante as reformas adequadas ou foram atropelados pela avalanche de mudanças culturais. O papa argentino tão pouco o conseguirá sozinho ou em curto prazo, mas são visíveis os alicerces de uma construção sólida e oportuna. Essa chamada reforma passará pela estrutura arcaica da Cúria Romana, mas continuará pela formação dos futuros padres e por um modus operandi que interpele o ser humano, e lhe apresente o ideal de Jesus Cristo, seguido numa família de irmãos embalados pela fé, pelo amor e pela esperança. Sendo assim, a busca desesperada da quantidade, dará lugar a um empenho de presença no mundo através do testemunho. Essa reforma não será então mais do que a atualização pura e simples do mandato de Jesus.

MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina

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