O Brasil precisa de médicos no interior e nas periferias das grandes cidades. O governo tenta, com esta argumentação, desviar o foco da realidade. Mas o problema não é o número de médicos, e sim a falta de estrutura para que estes desenvolvam seu trabalho adequadamente. De que adianta médico, se não há estrutura que dê suporte ao trabalho deste profissional? Brasileiros que não conseguem passar nas provas e vestibulares no nosso País buscam lá fora o ensino na área médica. O ensino alcançado nem sempre é de qualidade, conforme comprovam as avaliações feitas pelo exame Revalida.
Observe-se que médicos oriundos de Portugal e Espanha alcançam notas e são aprovados, porém, menos de 10 % dos profissionais oriundos de Cuba, Bolívia e alguns outros países da América do Sul são aprovados. Na mesma prova aplicada a alunos do sexto ano do curso de Medicina da Universidade do Rio Grande do Norte, 70% foram aprovados.
A solução passa por adequar a estrutura e criar uma carreira para o médico; não está em trazer médicos do exterior. A classe médica, por meio de seus conselhos, tem se posicionado claramente a esse respeito. O problema está em trazer médicos sem qualquer avaliação da qualidade. Quem sofrerá com isto? O cidadão brasileiro, já cansado de ser maltratado por um sistema público de saúde, que no papel é exemplo, mas, aplicado, se transforma num transtorno em decorrência da má gestão dos recursos. Ano passado, o Ministério da Saúde deixou de utilizar R$ 17 bilhões do orçamento previamente destinado à pasta. E, reiteradas vezes, o ministro Alexandre Padilha tem dito que falta verba para a Saúde.
Já em relação ao Ato Médico, enquanto os médicos, junto aos deputados e senadores, buscaram a caracterização do trabalho profissional dos formados que estão para o atendimento à população, e que passam por matérias específicas do curso que permitem exercer de pleno suas atividades, veem o governo federal, numa atitude intempestiva, vetar de uma só vez os artigos que caracterizam a atividade médica, já exercida de pleno no país.
Não se trata de criar novas situações. O Ato Médico vem simplesmente transformar o que é de fato no que deve ser, também, de direito. As atividades dos demais profissionais que trabalham na área da saúde não sofreram mudanças, estão devidamente caracterizadas em seus conselhos e têm estes o direito lá estabelecido. É obrigatório que essa situação seja revista. Tanto pelo direito profissional do médico, como e, principalmente, pelo direito de qualquer cidadão que exerce sua profissão, uma vez que, quando se agride de maneira tão violenta uma classe de profissionais sem que haja uma resposta , a porta fica aberta para que o mesmo aconteça com todas as outras atividades. O que os médicos hoje buscam nada mais é do que o direito de exercer sua profissão na plenitude da mesma; e respeito do governo para com a população, não criando "franksteins" demagógicos, ao invés de atacar direta e prontamente os verdadeiros problemas desta nação que começam vir à tona e estão relacionados à incapacidade de gestão das áreas que são de obrigação do governo federal. A abordagem multidisciplinar do paciente é positiva, traz múltiplos benefícios, desde que os profissionais envolvidos respeitem a área de atuação de cada um e que exerçam com sabedoria o que lhe foi devidamente transmitido na sua formação acadêmica. A incursão do profissional sem formação e conhecimento para tal em outras áreas de domínio, nos parece ambição desmedida, que levará ao prejuízo daquilo que é o nosso objetivo comum. Ou seja, o melhor atendimento do paciente, se utilizando do todos os recursos disponíveis para seu benefício.
Necessitamos, e exigimos seriedade no atendimento à saúde da população.

RUBENS MARTINS JR é vice-presidente da Associação Médica de Londrina e ALBERTO TOSHIO OBA é presidente do Sindicato dos Médicos do Norte do Paraná

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res (55 linhas) e no mí­ni­mo 1.600 ca­rac­te­res (25 li­nhas). Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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