Independentemente do movimento dos caminhoneiros realizado em vários Estados recentemente, a razão do protesto do Sindicato dos Caminhoneiros Autônomos de Londrina é que o pedágio cobrado no Paraná é o mais caro do Brasil. Além do custo elevado, ninguém menciona que o modelo paranaense não tem similar no mundo. Aqui não houve privatização, mas a entrega às concessionárias de estradas já prontas - estas de propriedade do povo, que as pagou com seus impostos - e a liberação do governador Jaime Lerner para que tais empresas começassem a cobrar preço cheio, e imediatamente. Na época, escrevi alertando que se estava cometendo um absurdo (pelo modelo do pedágio), e que transtornos viriam. Os deputados não devem ter percebido o que o governo fazia, certamente por desinformação acerca do que era privatização de rodovias. E até hoje, talvez a maioria dos usuários e dos governantes não saiba.
As parcerias público-privadas no sistema rodoviário existem há bastante tempo em muitos países, e são uma excelente solução, mas o que se questiona no Paraná é o formato adotado. Nos países de primeiro mundo que implantaram o pedágio, as empresas - seguindo as rotas propostas pelos governos - construíram as rodovias com seus próprios recursos, desde a aquisição da faixa territorial até a construção de pontes e viadutos, a pavimentação e a sinalização. Só a partir daí começaram a cobrar pedágio, geralmente pelo período de 24 anos. Tal modelo tem um nome em inglês: a sigla BOT, ou Build-Operate-Transfer, ou seja, a empresa constrói com seus próprios meios, opera, obtém renda e, ao final daqueles anos, devolve a rodovia para o Estado sem ônus público. Isto é que se chama privatização.
Houve casos em que as empresas compraram do governo estradas velhas e mal conservadas, e as transformaram em caminhos de qualidade. O povo nada investiu e, com o dinheiro da venda, o poder público fez reinvestimentos sociais em outras áreas. Dessa forma, os usuários pagam pedágio sem reclamar. No caso de estradas novas, foram mantidas as antigas, como alternativa para quem não deseja pagar pedágio. Esses são os sadios modelos de privatização consagrados no mundo. Dirigi veículos por rodovias pedagiadas e alternativas da Califórnia, da Fórida e das regiões de Nova York e Filadélfia, e vi como funciona. Nos convênios só de manutenção a tarifa é mínima.
No Paraná, as estradas alternativas foram justamente as doadas. Ficamos sem elas e investimentos em duplicações não foram inteiramente cumpridos, num montante a menos de R$ 1 bilhão, apenas no caso de duas concessionárias. As demais são ainda objeto de levantamento. Estive meses atrás no México e fui informado que o bilionário Carlos Slim figura entre os compradores de estradas públicas, para investir no pedágio.
As concessionárias, no Paraná, não têm culpa pelas benesses recebidas, mas são acusadas de não haver feito devidamente os investimentos contratuais. Talvez, só por isso caberiam rescisões ou encurtamento do prazo de concessão, previsto para terminar em 2021. O governador Roberto Requião estava certo em sua campanha contra o pedágio, mas todas as suas demandas resultaram perdidas. Ele só foi um pouco ingênuo ao crer que podia derrubar contratos assinados. Agora o clima é outro. Depois das recentes manifestações dos jovens, que mostraram a força do povo, acuaram os poderes constituídos e acumularam munição e moral para eventuais novos levantes, a queda antecipada desse modelo de pedágio pode até acontecer.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res (55 linhas) e no mí­ni­mo 1.600 ca­rac­te­res (25 li­nhas). Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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