ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de julho de 2013
Fernando Medeiros de Albuquerque 
A Folha de Londrina noticiou recentemente que o Brasil recebeu aval para exportar carne de cavalo para a Rússia. Nosso País é o quinto maior exportador mundial de carne de cavalo e tem a segunda maior tropa equina do mundo. Sempre achei injusto dizer-se que o cachorro é o melhor amigo do homem, pois acredito que o cavalo mereça este título.
Desde os primórdios da humanidade o cavalo amparou o homem em sua jornada. Ele foi tudo, literalmente: condução, força de trabalho, instrumento de guerra e de esporte, diversão e companhia. A união do homem e do cavalo causou um impacto imensurável na vida humana, sendo somente comparável ao que ocorreu com a invenção da máquina a vapor, pois com a equitação permitiu-se a um ser humano vencer distâncias em períodos bem inferiores ao que se realizava naquelas épocas, bem como realizar tarefas que suplantavam em muito as suas forças.
O cavalo era o bem mais valioso que qualquer família poderia ter: na montaria, no arado, na carroça, sempre ao lado do humano, não há interação equivalente à existente entre humano e equino no reino animal. Antigamente, o cavalo era o animal mais admirado e o bem mais valioso, sendo que as provas históricas destes fatos são as primeiras moedas que surgiram talhadas, as quais não eram produzidas com imagens de deuses, reis, imperadores ou temidas feras, mas sim do cavalo.
Sustenta-se que Átila e os hunos prevaleceram por serem os primeiros a adestrarem os cavalos. Em 1938, época em que se aproximava a 2ª Guerra Mundial, Seabiscuit, o famoso e pequeno cavalo campeão homenageado pelo cinema, foi o nome com o maior número de manchetes jornalísticas em todo o mundo; Adolf Hitler foi o segundo. Nietzsche surtou ao ver um cavalo atrelado a uma pesada carroça ser cruelmente chicoteado, fato que reproduziu a brutal narrativa de episódio semelhante feita por Dostoiévski em "Crime e Castigo". Na colonização norte-americana a pena para ladrões de cavalos era a forca, eis que considerado um dos crimes mais graves.
O cavalo mudou a vida do homem e nos levou ao que hoje vivenciamos: injustamente o ser humano não reconhece seu valor. A imprensa já noticiou a extrema crueldade praticada por diversos matadouros de cavalos: 12 horas antes do abate os animais são privados de água e alimento, depois conduzidos molhados a um corredor onde são submetidos a choques elétricos de 240 volts; a seguir tomam uma pancada na cabeça e têm suas patas cortadas com machado, tesourão ou serra, para esgotar todo o sangue enquanto agonizam. Imagens na internet comprovam o horror aqui narrado e não sugiro a ninguém buscar por tais registros de imagens extremamente perturbadoras.
A Constituição Federal, no inciso VII do artigo 225, prevê que compete ao poder público vedar práticas que submetam os animais à crueldade. Desconheço notícia de que existam criações de cavalos para abate, então, se supõe que os animais abatidos são aqueles que trabalharam a vida toda e já não suportam mais as extenuantes tarefas a que são submetidos. Assim, depois de uma árdua história de serviços prestados os animais são mortos com intensa brutalidade.
É constatado que os que são sanguinários com os bichos revelam uma natureza propensa à crueldade. Estima-se que os equinos estão na Terra há cerca de 60 milhões de anos; para sorte da humanidade e infortúnio deles. Demócrito de Abdera ensinava: "Talvez sejamos ridículos quando nos vangloriamos de ensinar os animais. Deles somos discípulos nas coisas mais importantes". Cabem aqui as palavras de Dostoiévski quando escreveu "O diálogo com o demônio" de sua obra "Irmãos Karamazov: "[...] é permitido a todo indivíduo que tenha consciência da verdade regularizar sua vida como bem entender, de acordo com os novos princípios. Neste sentido, tudo é permitido [...] Como Deus e a imortalidade não existem, é permitido ao homem novo tornar-se um homem-deus, seja ele o único a viver assim".
FERNANDO MEDEIROS DE ALBUQUERQUE é advogado em Londrina
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