Nas ruas das cidades brasileiras e nas redes sociais, misturadas à profusão de cartazes e posts com condenações aos males da sociedade e uma série de reivindicações, um tipo particular de mensagem sobressaía-se pelo seu caráter inédito. Redigida com os mais distintos sujeitos seguidos do emblemático "não me representa", tornou-se viral. Não há mais enfático sinal da doença social que alimenta nossas e outras manifestações pelo mundo: a total perda de confiança do que se discute e se trata nas dependências do poder por meio da política e dos partidos. Seja nas instituições do Estado ou pelos áulicos que delas se aproveitam, nada parece fazer sentido ao cidadão minimamente informado.
Quem o representa? Nenhuma instituição tradicional parece dar conta, porém uma nova e alardeada forma de interação surge no vácuo desta função: as redes sociais, simbolizadas na "geração facebook". Manuel Castells em seu livro "Communication Power" desvela brilhantemente que a luta fundamental pelo poder é a batalha pela construção de significados na mente das pessoas. Ora, o espaço das redes sociais representa a medida exata da natureza caótica, horizontal e superficial dessa batalha nos tempos atuais. Ferramenta midiática sem profundidade, porque assim foram criadas visando o entretenimento, as redes sociais foram apropriadas pela manifestação de diversos públicos que querem expressar seus significados. Assim como no hipertexto, nos deparamos com opiniões e encontros virtuais dos mais distintos no entorno do ressentimento niilista. Por eles navegamos e aí ficamos. Continuamos navegando quando o hipertexto alcança as ruas e vemos cartazes e manifestações como se o asfalto fosse tela de um gadget. É a "geração facebook" se expressando não só nas redes, mas ganhando o espaço público com seus posts em forma de cartazes. Param por aí. Não se consegue aprofundar debates das saídas, apenas marcar encontros catárticos que exorcizam a massa por meio de cartazes, faixas e, muito menos aceitável, em violências dos vândalos de ocasião.
Os políticos por sua vez nada entendem. Não percebem que a confiança se deslocou do discurso tradicional das tribunas para a conversa virtual nas redes e sua correspondente das ruas. Nas redes cada um pode se expressar da forma que desejar. Basta postar uma foto, repassar um vídeo e redigir mensagens curtas. A classe média interage e encontra nas redes sociais aquilo que a política tradicional não fornece: participação e influência no poder.
Todavia a glamourização em curso do espaço comunicativo das redes sociais e sua expressão nas ruas apresenta riscos. Não se vislumbra caminhos de como ultrapassar a superficialidade dos protestos e transformá-los em projetos. Falta foco às manifestações.
Não se pode perder a oportunidade, tampouco correr o risco de retrocessos. Política e democracia são realizadas desde os tempos gregos da Ágora, pelo debate. Entretanto, agora a praça tem mais de um endereço. Habitam a vida da classe média e dos jovens uma Ágora virtual, e dela os políticos não se deram conta. Onde está o debate nas redes sociais? Onde está a convocação para o debate público de políticas e soluções? Outros segmentos que também deveriam enriquecer e equilibrar o conteúdo das redes não se fazem presentes.
Uma reforma da representação política precisa ser alcançada com urgência e, para tanto, as redes precisam ser exploradas também para o debate público de soluções, superando o mero reivindicatório. Se a política tradicional não entender que o novo espaço comunicativo precisa ser ocupado, não para controlá-lo, mas para reformar o distanciamento do debate nas instituições, então o slogan "não me representa" corre o risco de dar asas aos oportunistas, pondo em perigo o que conquistamos até aqui com sangue, suor e lágrimas.

ALVAIR SILVEIRA TORRES JUNIOR é professor doutor na Faculdade de Administração, Economia e Ciências Contábeis da Universidade de São Paulo

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