Há pouco mais de 30 anos, antes que houvesse rede mundial de computadores, tablet, i-Pod, celular, ou mesmo outros tipos de mídias portáteis acessíveis aos jovens das classes menos abastadas, a juventude mais antenada se ligava nas ruas em fliperama, walkman, revistas especializadas e papos na esquina. A diversão visual e o humor criativo, que hoje dominam o espaço virtual na forma de charges, montagens e memes, se espalhavam fisicamente por meio de grafites, camisetas e gibis. Uma tribo era reconhecida pelos símbolos que exibia nos uniformes e nos muros que marcavam seu território e espaços de reunião. E todos tinham um gibi favorito.
Os gibis eram o retrato maior da ideia de utopia que os jovens e senhores conheciam, aqueles mundos anárquicos e universos paralelos, repletos de homens e mulheres com superpoderes e capacidade de alterar o desfecho da história quando tudo mais parecia perdido. A vida real não é um gibi... antes fosse. Então, qual a diferença mais marcante entre essas duas realidades? Em ambas há perigos, problemas, riscos e confrontos – em diferentes escalas, claro – e nas duas as pessoas se sentem assustadas, desoladas, oprimidas e incapazes no decorrer dos eventos. Contudo, o maior diferencial veste-se com trajes exóticos e coloridos nos momentos mais críticos: os gibis estão repletos de heróis. Mas, o que é um herói?
Aprendemos, principalmente pelo senso comum, que um herói é alguém com superpoderes, superarmas ou apenas supercoragem e sorte, mas nesse painel podem entrar vários subgêneros. Há, na vida real, homens com superpoderes relativos (lutadores de MMA, penta-atletas, gênios, presidentes) e com superarmas (combatentes de Forças Armadas, ditadores com bombas atômicas) e nenhum deles consegue resolver definitivamente problemas cruciais no mundo, como a má distribuição de renda e a melhoria dos serviços públicos. Vamos admitir, porém, que alguns caras chegaram bem perto de serem considerados heróis utilizando apenas a terceira prerrogativa para isso: supercoragem e sorte.
Com as devidas ressalvas, podemos considerar alguns personagens históricos como modelos bem próximos da ideia que temos de herói: Nelson Mandela, Jesus Cristo, Joana D´Arc, Mohandas Gandhi, Che Guevara, Madre Tereza, Chico Xavier e outros que compartilhavam o atributo da supercoragem e da sorte: coragem ao dedicarem sua vida a uma causa específica impessoal e sorte por conseguirem sobreviver a ela (pelo menos até serem reconhecidos por sua luta). Estes homens (e mulheres) relegaram ao mundo uma definição categórica do que diferencia pessoas comuns de heróis: o sacrifício.
Na vida moderna, as pessoas (hoje conhecidas como internautas ou telespectadores, dependendo do monitor que os rege) reconhecem o heroísmo em atitudes como caridade e benevolência. Principalmente, se praticadas por celebridades, tais como Bill Gates, Angelina Jolie, Bono Vox, Julian Assange e demais ativistas políticos e sociais que aplicam parte de seus lucros financeiros em prol de outras causas ou pessoas. São personagens dignos de louvor, e seria muito gratificante se seus exemplos fossem seguidos por demais pessoas em condição semelhante. Porém, eles não podem ser classificados como heróis. São sim filantropos e altruístas, todavia, convenhamos com uma afirmação justificada: não pode haver heróis burgueses. A explicação é muito nítida: um altruísta doa sem sacrifício, um herói faz sacrifício mesmo que doa.
E mesmo com toda a mudança vivida nestas três décadas de evolução tecnológica, estrutural, informacional e - por que não - social e política, mesmo que os gibis não sejam hoje uma referência tão forte no imaginário popular quanto foi naquele tempo, lastimavelmente a maioria de nós continua esperando um herói. Qualquer pessoa ou grupo que nos represente, e salve, nos momentos mais críticos da vida. As ruas reclamam mudanças em uníssono, mas cada individualidade ali presente clama por um herói imaginário. Não nos deixemos enganar pela campanha dos falsos heróis.

MÁRIO GONÇALVES DIAS JUNIOR é professor de Geografia em Londrina

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