ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Luiz Gustavo Packer Hintz 
Discordo quando afirmam que as reivindicações dos recentes protestos no País seriam difusas e por isso de difícil consecução. Embora tais reivindicações tenham adquirido variadas formas e porta-vozes, todas ecoam um mesmo objetivo: maior zelo por parte de nossos administradores para com a coisa pública. Para alcançar esse objetivo, teremos que desestruturar séculos de benesses difundidas nas mais variadas formas e tamanhos no sistema político-administrativo. Da mesma forma que o povo às duras penas tenha tido que recorrer às ruas para se fazer ouvir, resta ainda a não menos árdua tarefa de reformar aquilo que todos sabem, mesmo que instintivamente, estar errado.
Não é minha intenção fazer apologia a uma administração mais para a "direita" ou para a "esquerda". Esse tipo de debate interessa apenas a certa casta de políticos sedentos de poder na hora de pedir votos aos eleitores. Em um ambiente sem corrupção, no qual a primazia do interesse público sobre o interesse privado reja a administração pública, pouco importaria um viés mais à "direita" ou mais à "esquerda". A corrupção é o grande mal que degrada até mesmo os mais altos ideais, não importa se venha da "direita" ou da "esquerda". É, portanto, princípio econômico que uma maior competitividade entre provedores de bens ou serviços traz maior bem-estar às famílias.
Por outro lado, a criação e a manutenção de monopólios ou de oligopólios diminui o bem-estar das famílias. Tiro o chapéu para os empresários que obtêm sucesso em um ambiente no qual várias empresas competem entre si pelos "votos" monetários que os consumidores lhes dão ao comprarem os seus produtos. Em um ambiente competitivo os empresários precisam ser eficientes e eficazes no atendimento aos anseios de seus consumidores e, além de gerarem empregos e movimentarem a economia, a concorrência os obriga a produzirem com maior qualidade a um preço menor trazendo assim ganhos reais em termos de bem-estar às famílias (os consumidores).
Foge a mim, entretanto, qual seria a lógica por trás da insistente criação e manutenção de monopólios e de oligopólios por parte de nossas administrações públicas. No caso dos transportes, por exemplo, o modelo vigente de concessões prima pela ineficiência e ineficácia, uma vez que os preços pagos pelos consumidores (nossas famílias) não são formados pelas forças de mercado em um ambiente competitivo, mas por força de cláusulas constantes de contratos multimilionários, multibilionários, firmados entre o Estado e algumas poucas empresas privadas. Qual o interesse de um empresário oligopolista em melhorar o serviço prestado quando o consumidor é obrigado a consumir e a pagar por esse serviço pela própria ausência de outras empresas fornecedoras? Nosso povo já percebeu isso e indo às ruas reivindicar o fim desse mecanismo perverso de transferência de renda da população para algumas poucas oligarquias.
Recentemente, em nosso Estado, nas semanas e meses que antecederam as atuais passeatas, houve a informação veiculada pela imprensa de que recursos públicos seriam empregados para as obras de duplicação da PR-445. O que a população em sua enorme sabedoria não consegue entender qual a lógica para a implantação de pedágios se obras serão realizadas com dinheiro dos nossos impostos? Quando investimentos públicos são feitos envolvendo entes privados, somente a criação e a manutenção de práticas de mercado legitimamente competitivo podem garantir ganhos reais à população se for facultada aos usuários a escolha entre a utilização dessa ou daquela concessionária de transportes públicos, entre essa via pedagiada ou aquela não pedagiada. Entre um monopólio público e um monopólio privado, fiquemos com o monopólio público. Neste último ao menos o povo possui o direito de expressar o seu descontentamento.
LUIZ GUSTAVO PACKER HINTZ é engenheiro civil em Londrina
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