O povo brasileiro acordou, abriu os olhos e está se levantando. A força é de tal maneira que uma unanimidade foi atingida: não existe um cidadão sequer que eu converse ou escute que não esteja a favor das manifestações. Pessoas simples, sem acesso a uma boa saúde, educação ou moradia concordam e falam sobre o assunto, ao mesmo tempo, em que despertam executivos, profissionais liberais, comerciantes, estudantes, crianças e os políticos, sim os políticos, desde vereadores, deputados, até a nossa presidente. Ninguém é capaz de desafiar este movimento. O Congresso passou a trabalhar dia e noite, a PEC 37 foi rejeitada com 430 votos.
Todos nós estamos saturados da corrupção. Bilhões de reais gastos inadequadamente e roubados para saciar o poder e ganância de poucos. Cansamos. Cansamos, na verdade, há um bom tempo. O brilho nos olhos dos poucos que saíram às ruas conseguiu contagiar a grande maioria que ficou em casa. A pergunta "como o povo brasileiro consegue ficar calado?", que ecoava na mente de cada um de nós no passado, silenciou e fomos além. Não aceitamos mais promessas vazias e jogos de futebol para nos sedar e nos cegar frente à deterioração constante da política. Pelo menos duas dezenas de bilhões estão sendo financiados pelo governo para a Copa do Mundo de 2014, e, segundo especialistas, o retorno direto será de pouco mais de R$ 3 bilhões. Como essa conta fecha?
Não é possível retroceder e a esperança está mais viva do que nunca. Esperança no extermínio da corrupção e em uma administração pública que governe para o povo. Mas, afinal, se conseguíssemos um feito inédito de acabar com a corrupção, quem assumiria? Será que não cortaríamos somente as folhas da árvore? Começamos uma revolução que não pode ficar somente na esfera política. Temos que levar para dentro de nossas casas. Não acredito que um corrupto tenha começado com milhões de reais desviados dos cofres públicos. Acredito no mal das pequenas concessões que acontecem todos os dias. Você confiaria a política do Brasil a alguém que não se incomodasse em mentir para sua mulher ou filhos?
Aquele mesmo vereador ou deputado que oferece benefícios "não divulgados" para seu eleitorado, é o mesmo que fere o coração da nossa pátria com licitações de cartas marcadas, sangrando o sistema público para satisfação própria. Mas há também no poder médicos, advogados, engenheiros e outros profissionais que poderiam fazer diferença em seu clube, associação de bairro, condomínio, nos hospitais, nos escritórios, na construção civil e não fazem. Acabam suprimindo o desejo de liderar e gerenciar em prol de muitos para compensar injustiças que a vida vem oferecendo. Mal sabem que se tornam tão culpados quanto aqueles que estamos julgando.
A corrupção está dentro de nossas casas. O poder da transformação também. Não vamos retroceder! Vamos mostrar ao mundo que o " jeitinho brasileiro " não tem nada a ver com tirar vantagem sobre alguém ou algo. Esses dias um amigo ao pagar a conta corrigiu a cobradora dizendo que havia consumido um suco de laranja a mais. Com espanto a moça se recusou a cobrar o segundo copo como oferta a essa honestidade rara. Não pode ser assim, vamos mostrar aos nossos filhos que aceitar troco errado, comprar mídias piratas, pagar propinas para se livrar de pequenos inconvenientes, sonegar imposto de renda, jogar papel na rua, e tantos outros pequenos delitos que estão entranhados na raiz da família é errado, é corrupção. Vamos trazer para a esfera privada o que levamos para as ruas: nossa indignação contra qualquer tipo de corrupção. Realmente, esta é uma boa hora para irmos além.

RONALDO DAUDT é cirurgião vascular em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res (55 linhas) e no mí­ni­mo 1.600 ca­rac­te­res (25 li­nhas). Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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