A vida humana é feita de encontros. Encontro é uma experiência fundante em nossa vida. Nossos encontros moldaram nossa personalidade. Pedro, Paulo, a Samaritana, Zaqueu, Madalena, Nicodemos, etc., mudaram de vida a partir do seu encontro com Cristo. Encontro é experiência, acontecimento, comunicação de um eu com um tu para acontecer o "nós".
Do encontro nasce o namoro, o casamento, a família, a amizade, a história humana. Não menos maravilhoso é o encontro conosco mesmos, a autoaceitação, a autoconsciência e a autoestima. Os pecadores, ateus, gnósticos narram seu encontro com Deus, sua conversão como um novo nascimento, nova vida, nova personalidade. Emociona-nos o encontro de Agostinho com a graça, a misericórdia e a beleza de Deus. Francisco de Assis, Camilo de Lellis, Inácio de Loyola, são gigantes e monumentos imortais da experiência do encontro com Jesus de Nazaré. Uma interminável multidão de convertidos testemunha a força transformadora e irradiante do encontro com Deus.
A arte do encontro consiste em que eu me torne mais eu mesmo na comunicação com um tu. Graças ao encontro o outro passa a ser "ele ou ela", um você, um próximo, um amigo, um irmão. Não é apenas um indivíduo. A trajetória do encontro começa com a reciprocidade, a comunicação, a decisão e enfim o encontro. Nós somos nossos encontros.
O encontro nos reumaniza, reabilita, reconstrói. Deixemos de construir muros e passemos a construir pontes. "O encontro é um ato essencial do homem" (M. Buber). O encontro é a "ciência da singularidade" onde eu posso ser eu mesmo e permito ao outro, ele se ele mesmo. O encontro move a mudança e o crescimento, enfim, o amor.
Nossa cultura moderna é muito individualista. Isso dificulta o encontro e ao mesmo tempo arrasta para encontros superficiais que acabam em desencontros. A mística do encontro é exigente porque requer abertura, respeito, confiança. Assim, o círculo vicioso se torna círculo virtuoso. A qualidade do encontro é que conta. Temos encontros superficiais e encontros profundos. Estes marcam a vida para sempre.
O encontro verdadeiro é o remédio para a solidão, a insegurança, a baixa estima. Como faz bem o encontro com os parentes, os amigos, os colegas de trabalho, sem esquecer o encontro com o médico, com o padre, com o psicólogo, com o mestre. Nossa vida começou com um encontro, um abraço e se completará na face a face com aquele que nos ama. É pelo encontro que a gente se encontra a si mesmo.
Deus é o primeiro a sair de si e vir ao nosso encontro. Ele nos ama com antecipação, ele dá o primeiro passo, ele ama primeiro, ele oferece proposta de amizade e se revela a si mesmo, criando intimidade conosco. O encontro é fruto do amor. Deus quer encontrar-se conosco e ele deixa-se encontrar. Não o encontraríamos se ele primeiro não nos tivesse encontrado.
Desde o acordar até ao adormecer nosso dia é marcado pelos encontros. Entendemos assim como é verdadeiro e saudável o mandamento do amor fraterno. Para tirarmos fruto de nossos encontros, precisamos de abertura do coração, oferta do nosso tempo, o sentimento de respeito pela e dignidade do outro, a benevolência. Nos encontros com outro encontramos Deus e a nós mesmos.
A massificação do mundo de hoje e a individualidade impedem a experiência do encontro. Todavia, o diálogo, o perdão, a oração, a descentralização de si são meios eficazes para a gente se encontrar. A festa, a visitação, os grupos de vida e o sofrimento são ocasiões propícias para o encontro. Sem êxodo não há encontro.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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