ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Amélio DallAgnol e Eduardo Assad 
O fenômeno conhecido como efeito estufa é resultado do aquecimento da superfície terrestre pela radiação solar, em que parte do calor é devolvida ao espaço onde encontra barreira de gases, como o dióxido de carbono (CO²), que obstrui a passagem desse calor, o qual fica retido na atmosfera e a aquece como se ela fosse uma estufa. Esse fenômeno sempre existiu no nosso planeta e tem sido responsável pela manutenção da temperatura terrestre em níveis suportáveis. Sem a retenção desse calor, a temperatura média na superfície da terra seria de 18 graus negativos. Frio demais.
Por esta razão, o que preocupa a moderna sociedade não são os gases de efeito estufa (GEE), mas o seu acúmulo excessivo na atmosfera, o que faria com que a temperatura na superfície da terra se elevasse além do normal, ameaçando a nossa sobrevivência. Há controvérsias quanto à real possibilidade de ocorrência do aquecimento global, haja vista que o nosso planeta já passou por outros períodos de mudanças climáticas e retornou à normalidade. Os céticos poderiam, inclusive, argumentar que as temperaturas do último inverno/primavera no hemisfério Norte Europa, em especial foram as mais baixas em décadas, intuindo que a temperatura na superfície da terra está caindo e não subindo.
Mas há evidências de que a concentração dos GEE na atmosfera tem aumentado consistentemente desde a revolução industrial iniciada em 1750. Apenas nos últimos 50 anos a concentração de CO² na atmosfera subiu de 310 para 400 ppm. Segundo os especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (Ipcc/ONU), a partir desse nível de concentração de CO² é certo que haverá um aumento mínimo de 2°C na temperatura média da terra. E, pasme, esse índice foi atingido no último dia 9 de maio (NOAA Institution of Oceanography). Segundo o Ipcc, mantido o atual ritmo de emissões de GEE, até o final do século teríamos um aumento de até 6,4°C na temperatura média da terra. Um desastre.
Apenas para alertar e refletir: os dez anos mais quentes desde 1880, ocorreram ao longo dos últimos 16 anos. Essa mudança de temperatura poderá determinar o derretimento do gelo acumulado nas áreas polares, o que elevaria o nível dos mares e inundaria cidades costeiras, como Rio, Salvador, Recife e Fortaleza. Além desse fenômeno, outros eventos poderiam ocorrer com maior frequência e com maior intensidade, como secas, furacões, ciclones e tornados. Para frear a emissão desses gases só há um jeito: reduzir a queima de combustíveis fósseis e de outros materiais orgânicos, reduzir o desmatamento/queimadas e maximizar estratégias de sequestro do carbono, como a recuperação de áreas degradadas via plantio direto na palha, integração lavoura/pecuária/floresta e reflorestamento de áreas não agricultáveis.
O processo produtivo agrícola brasileiro tem sido e ainda é reconhecido como eficiente no uso de boas práticas agrícolas para a recuperação de terras degradadas, através de cujo processo é incrementada a produção de biomassa, uma importante estratégia para capturar o CO² da atmosfera via fotossíntese, a qual incorpora o carbono (C) nos tecidos orgânicos vegetais e libera o oxigênio (O²) na atmosfera. Pesquisas mostram que os sistemas de produção agrícola que integram a produção de grãos, com pastagens (ILP) ou grãos, com pastagens e florestas (Ilpf), têm potencial para estocar grandes quantidades de carbono no solo e na biomassa aérea, e contribuem efetivamente para o sequestro de CO² da atmosfera, mantendo-o preso aos tecidos vegetais incorporados ao solo. Solos ricos em matéria orgânica são um grande depósito de carbono, o qual poderá retornar à atmosfera como CO² se medidas de manejo adequadas, como o plantio direto, a ILP e a Ilpf, não forem implementadas para retardar a mineralização da matéria orgânica pela atividade microbiana desse solo e, consequentemente, manter o carbono na forma orgânica no solo, por períodos mais longos.
AMÉLIO DALLAGNOL e EDUARDO ASSAD são engenheiros agrônomos, respectivamente, em Londrina e Campinas (SP)
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