ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Jean Gabriel Vieira Coutinho 
Há algum tempo divulgou-se que o governo brasileiro está interessado em contratar seis mil médicos cubanos para tentar reparar o deficit de médicos no interior do País. Como estudante de medicina, usuário ativo do Sistema Único de Saúde (SUS) e proveniente do interior do país, gostaria de levar ao leitor um outro lado dos fatos.
Seria hipocrisia ignorar que a categoria médica brasileira não está lutando para manter seu espaço de atuação profissional. É claro que está! Mas qual o problema? Todas as categorias trabalhistas lutam para ver suas profissões regulamentadas, para ter um salário-base digno, uma carga horária de trabalho justa e, com certeza, seu campo profissional preservado. Assim é com professores, advogados, enfermeiros e não poderia ser diferente para médicos. Mas o problema, em si, não é esse.
Médicos estão lutando contra as medidas imediatistas e controversas do governo, que quer empurrá-los para trabalhar em áreas do interior do País. E os médicos não vão, não porque a cidade não tenha shopping e porque o salário seja pequeno (na verdade, o salário algumas vezes pode ser melhor do que nos grandes centros), mas é porque as condições de trabalho são precárias. Se ele erra no diagnóstico porque teve que confiar apenas no seu "faro clínico", já que o raio-X estava quebrado há meses, de quem é a culpa? É certo que todos os dedos seriam apontados para o médico.
E isso não importa para o senhor João, de 65 anos, morador de uma cidade do interior do Paraná. Ele só quer alguém com quem possa conversar um pouco e que receite algumas vitaminas. Não importa se o médico é da USP ou da faculdade de Medicina de Cochabamba, na Bolívia. Se suas necessidades forem atendidas, ele sairá da consulta e dirá para todos da família: esse é médico bom! E é de pessoas simples, como esse cidadão, que o governo gosta e concentra suas atenções, entregando a elas um placebo que lhes faça realmente acreditar que o Brasil é um país de todos.
Não quero dizer que os outros médicos da América Latina sejam inferiores aos brasileiros - mesmo alguns estudantes de medicina no Brasil têm uma formação deficitária -, mas abrir as fronteiras para médicos que nem uma prova de revalidação fizeram é, no mínimo, desrespeitoso com a população e médicos brasileiros. Se nem com uma prova é possível garantir que eles tenham condições para atuar com proficiência em território brasileiro, imaginem se nem isso houver mais! Se não houver revalidação, quem irá fiscalizar a atuação desses profissionais, já que eles não estarão sob a tutela do Conselho Federal de Medicina (CFM)? O governo conseguirá assegurar que esses profissionais se manterão no interior para assim resolver o problema da falta de médicos neste local?
Há ainda uma série de outras questões legais que demandariam por planejamento, mas estão sendo deixadas para um segundo plano. Que venham seis mil médicos cubanos, portugueses e espanhóis, mas que sejam avaliados de forma eficiente e justa, antes de receitar um medicamento para os pacientes brasileiros que merecem serviços de qualidade.
"Nunca antes na história deste país" uma política eleitoreira fora tão inteligente. E o problema não é por que o governo é de esquerda. O problema está em um governo contraditório que esconde os problemas debaixo do tapete e que não está preocupado com o morador do interior, com o médico brasileiro e nem com os outros médicos latinos. O que esse governo quer, simplesmente, é a perpetuação da dinastia, à custa de um povo que só quer um pouco de saúde.
JEAN GABRIEL VIEIRA COUTINHO é estudante de medicina na Universidade Estadual de Londrina
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