ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de junho de 2013
Dom José Antônio Peruzzo e padre José Rafael Solano 
Na sociedade em que vivemos é mais do que frequente deixar tudo para última hora. Trabalhos, infraestruturas, planos, projetos e até a decisão de levar uma gravidez adiante. Muitas coisas fazem parte do assim chamado "último momento". No final "tudo vai dar certo". Hoje se fala constantemente do uso da pílula do dia seguinte ou da contracepção de emergência como aquela solução de última hora frente a uma gravidez indesejada. Dizer "pílula do dia seguinte" causa certa perplexidade, ou melhor, deixa qualquer um desnorteado. O que faz esta pílula, qual o seu efeito e por que se tornou tão almejada no Brasil, quando rejeitada em países europeus? Qual a intenção dos órgãos de saúde pública e privada ao querer promover o consumo da pílula?
Desde o ponto de vista técnico, esse medicamento causa uma alteração no transporte tubário e também altera fortemente a maturação endometrial. Cientificamente seu nome é "Levonorgestrel". Elimina os vasos sanguíneos e a consistência (esponjosa) na sua espessura; causa uma espécie de explosão ou erosão na "terra" que se encontra apta para a fecundação. Após o medicamento ser ingerido a torna inadequada. Ademais sabe-se que desde o primeiro momento causa um efeito quase que imperceptível no organismo da mulher. Se ela mulher estiver ovulando ou muito próxima da ovulação, perfeitamente a fertilização pode ocorrer. Isso quer dizer que pode se verificar um aborto precoce.
Desde o campo ético surgem diversas perguntas: por que um contraceptivo como esse deve ser distribuído aleatoriamente às mulheres, sendo que a ciência tem conhecimento e dados estatísticos do mal que causa? Quais vantagens vislumbra o Ministério da Saúde ao promover a distribuição do medicamento, sabendo que no futuro terá uma grande população feminina portadora de doenças cancerígenas? Na sua imensa maioria as pacientes deverão ser atendidas pelo SUS. Estão preparados os agentes de saúde e os profissionais para a distribuição da pílula? Ao que parece, ela será distribuída de forma indiscriminada.
Sabemos que o problema não está centralizado somente no consumo da pílula do dia seguinte. Sabemos que existe uma forte resistência por parte de alguns para que este medicamento não seja oferecido sem consideração nenhuma a jovens e adolescentes que por alguma razão enfrentam o drama da gravidez prematura. Mas sabemos também que se a nossa voz não se proclama, continuaremos a ficar no silêncio dos inocentes e indiferentes, que por múltiplas razões preferem calar-se. A pílula do dia seguinte faz com que a vida muito mais do que violentada e usurpada seja eliminada imediatamente. É o mais contundente exemplo de eugenética.
Afirmar que um ser humano não é desejado é aceitar simplesmente o conforto de uma vida feita segundo os próprios desejos, sem levar em conta o direito dos outros. A pílula do dia seguinte concorre com o "sem sentido" e vazio da vida, deixando ao seu passo uma cultura que cada vez mais se centra em um individualismo exacerbado. Vamos promover diálogos e confrontos que nos levem a uma visão mais ampla, vamos nos sustentar na nossa capacidade de evitar catástrofes e prever desastres, vamos responder com suficiente inteligência, para que não continuemos sendo portadores de uma insensibilidade visível e mortífera. Da pílula do dia seguinte só ficará uma realidade: aquela de se transformar na "pílula do último dia" de quem podia nascer e não foi simplesmente "desejado".
DOM JOSÉ ANTÔNIO PERUZZO e padre JOSÉ RAFAEL SOLANO são membros do Núcleo de Bioética Congregação Nacional dos Bispos do Brasil, regional Sul 2
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres (55 linhas) e no mínimo 1.600 caracteres (25 linhas). Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br


