ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de maio de 2013
César Bessa 
Não esqueçamos: faz 45 anos que no mês de maio de 1968 desencadearam-se protestos em Paris e, de lá, para o mundo. Tudo começou com a repressão disciplinar a estudantes universitários do campus em Nanterre que protestavam contra a guerra do Vietnã. Ser contrário àquela guerra, aos olhos dos poderosos do primeiro mundo da Guerra Fria, não era só ser contrário à violência da guerra, mas era ser contrário ao sistema capitalista e ser favorável ao outro lado, o socialista.
A punição aos estudantes pela administração universitária gerou forte movimento de solidariedade dos estudantes em Sorbonne, que passaram a reivindicar a contratação de novos professores, novas salas de aula, bibliotecas, reforma do sistema de avaliação, fim do ensino medieval. Apesar das manifestações serem pacíficas, o reitor acatou a sugestão do governo e permitiu a primeira invasão policial à Universidade de Paris.
A violência gerou pancadarias que se estenderam por dias às ruas estreitas do bairro estudantil. Os estudantes ergueram barricadas com carros virados e coisas amontoadas. Os professores apoiaram os estudantes juntamente com grandes expoentes da cultura francesa e também foram às ruas protestar. Vencidos nas ruas, os estudantes foram à central sindical e o apoio foi a declaração de greve geral, que se alastrou com êxito por toda a França: transporte, entrega de jornais parados, dez milhões de trabalhadores em greve!
Seguiram-se ocupações de prédios públicos pelos estudantes e trabalhadores e as reivindicações de politização e democratização nas universidades foram adicionadas pelo clamor à criação de empregos, maiores salários, melhores condições de trabalho, etc. O tão aclamado festival de Cannes foi boicotado por cineastas de todo mundo.
Nos dias que se seguiram, o primeiro-ministro francês negociou com os sindicatos que obtiveram aumento do salário mínimo, redução da jornada de trabalho e idade mínima para aposentadoria. Mas o ministro da Educação caiu e, alguns dias depois, o próprio primeiro ministro renunciou.
Para o cineasta Bernardo Bertolucci, foi um sonho da juventude envolvida pelo cinema, política, música, sexo e filosofia, em que a Europa se fundiu à América, mas quem venceu, no final, foi a cultura consumista que absorveu os sonhos que querem esquecer, pois partiram de um destino e, infelizmente, chegaram a outro.
Para Herbert Marcuse, referencial intelectual daquele período, tratava-se de um movimento contra a cultura estabelecida, suas condições econômicas e sua falsa moralidade; não era uma revolução, nem uma pré-revolução, apenas uma recusa, uma grande recusa de um movimento espontâneo de massas formadas por estudantes e trabalhadores que se uniam contra a sociedade capitalista francesa e contra a construção stalinista do socialismo.
Maio de 68 espargiu da França para o mundo e tornou-se um referencial de movimento globalizado contra as ditaduras instaladas e pelo direito das minorias. Mostrou que as universidades, onde se discuti o conhecimento, são os centros críticos das negações de um sistema que vem, cada vez mais, unificando as dimensões numa só, como se tudo que nos é mostrado fosse harmonioso. E demonstrou, acima de tudo, que a democracia é melhor do que qualquer ditadura. Com as portas abertas é possível a crítica e manifestações que desloquem as sombras das coisas e das pessoas para possamos vê-las como são.
CÉSAR BESSA é professor de Direito na Universidade Estadual de Londrina
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