Nas últimas semanas ouvimos e lemos muitas matérias e comentários sobre a alta abusiva no preço do tomate e demais hortifrutigranjeiros, conhecidos no campo como HF. Para muitos, esse aumento deveu-se a problemas climáticos sofridos por regiões produtoras, o que diminuiu a oferta do produto, consequentemente ocasionando o aumento do custo ao consumidor final. No entanto, o sistema de produção e fixação de preços do tomate e demais HFs é muito mais complexo.
O sistema de produção dos HFs é caracterizado por pequenas propriedades agrícolas, grande necessidade de mão de obra, altos investimentos semanais e produtores sempre atentos e abertos a novas tecnologias. Diferente do complexo de grãos, como a soja, que suportam um certo período sem chuva, os HFs são extremamente suscetíveis ao deficit hídrico. Qualquer produtor que almeje sucesso no mercado deve dispor de um sistema de irrigação eficiente, que disponibilize água quase que diariamente à cultura, além de aplicações de defensivos agrícolas e fertilizantes via foliar de duas a três vezes por semana, sem falar na mão de obra das colheitas, que são realizadas diariamente sem a utilização de maquinários.
Mesmo com toda a complexidade do sistema, os produtores rurais não são os que ficam com a maior parte do lucro na comercialização dos seus produtos. Essa recente inflação que tivemos podem ter certeza de que para o agricultor o preço pago pelo seu produto teve sim um acréscimo, mas não na faixa dos 70% a 100%, que era o que o consumidor final estava pagando. A maior fatia desse lucro ficou no bolso dos atravessadores: comerciantes autônomos e grandes redes varejistas.
Na hora de comercializar sua produção, o produtor de HF pode optar por duas situações: vai ao Ceasa e vende seu produto pelo preço cotado, o qual sofre grande variação diária e até mesmo momentânea, ou entrega diretamente aos varejistas, onde ele consegue prefixar o preço do seu produto. No entanto, neste tipo de comercialização, os varejistas exigem 100% de reposição, ou seja, se ele adquirir dez caixas de tomate de um produtor na segunda-feira, comercializar apenas seis até quarta-feira e as quatro restantes estragarem, o produtor deve assumir o prejuízo, ficando o varejista resguardado.
Nesse contexto, de complexidade na produção, atrelado a um mercado instável, e que remunera mal o principal elo - o produtor -, nossos governantes locais deveriam olhar com mais importância esse segmento agrícola e quem sabe criar uma pasta especial dentro da Secretaria Municipal de Agricultura.
Poderíamos utilizar os centros de pesquisa já instalados na cidade (UEL, Iapar, Embrapa e órgãos particulares) para explorarmos melhor esse mercado, disponibilizando um maior amparo e estrutura aos produtores, desenvolvendo novas tecnologias, sistemas e meios de ampliar a produção e garantir a comercialização. Criar um selo de identificação para produtos oriundos dos produtores locais, cadastrados e certificados.
Esses produtores, melhor amparados e direcionados, ganhariam capacidade e condições nas aquisições de suprimentos, tecnologia, maquinários e instalações. Garantiriam melhores preços e condições no momento da comercialização de seus produtos, diminuindo a dependência de atravessadores e consequentemente maximizando seus lucros. Além de garantir melhores rendimentos e qualidade de vida aos produtores, com certeza, isso aumentaria a receita do município e o tornaria referência em mais um importante segmento da agricultura, além de fixar o homem no campo e até mesmo atrair mais pessoas para a atividade, que emprega grande mão de obra.
A implantação é complexa, trabalhosa, desafiadora, no entanto, os frutos colhidos com certeza serão benéficos a todos os elos da cadeia. Não adianta nos importarmos com o preço do tomate apenas quando o mesmo é a matéria principal da imprensa nacional.
GUILHERME ACQUAROLE é engenheiro agrônomo em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res (55 linhas) e no mí­ni­mo 1.600 ca­rac­te­res (25 li­nhas). Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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