Jesus foi um trabalhador manual. Trabalho não é castigo e muito menos mercadoria e mero instrumento de produção e de lucro. A dignidade de todo trabalho está na pessoa humana que o realiza "o trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho" (João Paulo II). O trabalhador é alguém cocriador com Deus e com seu reino, e construtor da comunidade. O trabalho é um "bem digno" e nunca pode servir de opressão, escravização e exploração das pessoas, porque dignifica o trabalhador, edifica a família, constrói a sociedade, transforma a nação. Portanto, o trabalho é algo positivo, criador, educativo e meritório.
É preciso defender a prioridade do trabalho sobre o capital. O centro de uma empresa é o trabalhador. O capital é o fruto do trabalho e subordinado ao trabalhador. Por isso o trabalho é a chave central de toda a questão social. A técnica, o lucro, a globalização não podem ser adversários do homem, porque o "sujeito" do trabalho é a pessoa humana. Sem esta defesa do primado da pessoa humana sobre o capital, teremos sempre exploração, escravismo e manipulação de pessoas e de vidas humanas.
O trabalho é fonte de direitos e deveres do trabalhador. A dignidade do trabalhador, confere-lhe direito ao salário justo, à associação sindical e sabemos que, como "último remédio", existe o direito à greve justa depois do fracasso do diálogo e das negociações, como afirma a encíclica sobre o "Trabalho Humano" nº 20. Claro que a greve é um meio extremo que não pode se transformar em jogo político, muito menos em abuso de um direito. Enquanto não for respeitada a dignidade do trabalhador e a dimensão social do trabalho, o desemprego, o êxodo rural, o trabalho feminino, a desqualificação do trabalhador, a exploração do trabalho infantil continuarão sendo as grandes ameaças contra a vida e contra os direitos humanos.
O Evangelho do trabalho significa "gostar do que fazemos, crer no que fazemos". Uma nova economia que respeite o primado do trabalhador sobre o capital, uma nova política que se converta para o desenvolvimento social e elevação dos pobres, uma nova mística religiosa forte no profetismo e na opção misericordiosa para com os pobres, são alianças e parcerias urgentes para salvar a humanidade do desemprego, da fome e da exploração. Sem revolução econômica, política e ética, a paz é um sonho e as guerras, os assaltos, os sequestros, as mortes, são o alto preço que iremos pagando até o raiar de um mundo diferente fundamentado no evangelho e na justiça. A humanidade tem dificuldades para equacionar a questão do trabalho. Ora luta com o desemprego, depois aparece o excesso de ócio. Há lugares onde o trabalho escravo oprime as pessoas e em outros lugares existe a superespecialização do trabalhador que é um fator excludente. Estamos ainda desconfortados com o trabalho excessivo dos pais e o abandono dos filhos. Vivemos uma era de sucesso empresarial e do fracasso familiar. Surgiram doenças modernas provocadas pelo excesso de trabalho. A divinização da matéria gera idolatria e escravidão. Quanto estresse, esgotamento, angústia provenientes do trabalho exagerado e divinizado.
Precisamos recordar a espiritualidade do trabalho que consiste em trabalhar com amor, com o coração, com alegria. O fogão, o volante, as máquinas, o bisturi, o computador, a vassoura são altares que santificam. É pelo trabalho que a pessoa se realiza, a família é sustentada, as potencialidades e criatividades afloram, a matéria é humanizada, a sociedade evolui e o trabalhador se santifica.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res (55 linhas) e no mí­ni­mo 1.600 ca­rac­te­res (25 li­nhas). Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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