ESPAÇO ABERTO
Liberação do aborto até 12 semanas
Florisval Meinão e Florentino Cardoso
A respeito do recente posicionamento do Conselho Federal de Medicina favorável à realização do aborto por vontade da mulher até a 12ª semana de gestação sem necessidade de autorização médica, é fundamental esclarecer que este não é o pensamento de todos os médicos brasileiros. A medicina é uma ciência que cuida da vida e a respeita prioritariamente. Crianças em gestação de até 12 semanas são seres vivos. Portanto, aprovar a autonomia pura e simples da mãe sobre a interrupção da gravidez equivale a concordar com a eliminação de vidas sem maiores justificativas. Esta prática não condiz com os princípios da medicina, na opinião de parcela significativa dos médicos.
Sendo assim, consideramos precipitado o indicativo de uma entidade médica, da forma contundente como ocorreu, sobre um tema tão delicado e polêmico, que deve ser amplamente debatido pela sociedade como um todo. Os médicos, como qualquer outro segmento social, obviamente têm direito de expressar suas opiniões. No entanto, por não refletir a posição consensual dos profissionais de medicina, a manifestação do CFM pode confundir a opinião pública e prejudicar a imagem dos médicos perante a população. A atitude de desconsiderar a diversidade moral e cultural no meio médico, assim como a multiplicidade argumentativa, fere o discurso da Bioética, plural e aprofundado, em torno do aborto.
Defendemos a interrupção da gravidez nos casos em que há indicação clínica, como anencefalia (malformação que causa a ausência total ou parcial do cérebro) e risco à saúde e de morte comprovado para a gestante. Outras situações devem ser discutidas e decididas pela sociedade, como ocorreu em relação às gestações ocasionadas por estupros, hoje passíveis de aborto legalizado. No processo de reforma do Código Penal, esperamos que sejam preservados os pontos de vista de todos os médicos brasileiros. Os parlamentares e juristas que se debruçam sobre a questão devem oferecer oportunidades equânimes para que os profissionais de medicina se expressem em suas diferentes visões.
FLORISVAL MEINÃO é presidente da Associação Paulista de Medicina e FLORENTINO CARDOSO é presidente da Associação Médica Brasileira
As responsabilidades da riqueza
Walmor Macarini
Ao responder a um rico cidadão romano sobre como administrar a riqueza, Jesus - que se encontrava em Roma - disse-lhe que nunca empregasse o dinheiro para obter vantagens injustas; e que primeiro é preciso purificar o capital para, a partir daí, obter dividendos. Por capital purificado ele queria dizer o que era obtido legalmente, por meio da honestidade, sem escravidão e exploração abusiva. Se não for conseguida dessa forma - ele afirmou - a riqueza será uma maldição. Jesus também condenou a usura, que é a especulação ilícita, como a de cobrar juros acima das taxas legais e morais.
Quanto ao dinheiro ganho de maneira acidental - imaginemos hoje uma loteria, uma herança - o sábio nazareno lembrou que o homem não deve considerar esse bem como sua posse exclusiva. Em outras palavras, propiciar que de alguma forma também outros se beneficiem dele; ajudar quem precise e criar meios que gerem emprego e assim favorecer um maior número de pessoas. Jesus não era contrário à riqueza, se obtida legalmente, pelo mérito do próprio esforço. E alertou que uma fortuna proveniente de fraude ou outros métodos do gênero deve ser restituída aos prejudicados. Também falou de salário e disse que uma civilização não pode alicerçar-se na espoliação do trabalhador.
Mas Jesus defendeu, nesse diálogo, que cada qual tem o direito de usar sua riqueza como deseja, se ela é amealhada legalmente, pelo fruto do próprio suor e da própria inteligência. Como se vê, ele também se devotava a falar dos problemas terrenos dos homens, pois aqui viera também para aprender tudo sobre as coisas deste planeta. Jesus havia sido também um trabalhador, na orfandade teve de administrar a família e os negócios da carpintaria e da oficina de reparos, pagava impostos, e, quando não estava pregando, estudava e orava. A gestão da riqueza é uma responsabilidade solene e sagrada. Foram suas palavras, e assim está escrito.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina
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