Houve um tempo no qual produzir, liberar, fumaça para o meio ambiente era sinônimo de desenvolvimento. Contestada atualmente, nem mesmo os maiores índices de fumaça liberados no Brasil, historicamente no mês de agosto, ofuscariam a fumacinha que tomou as manchetes em todo o globo. Ao sair branca da Capela Sistina, anunciou, simbolicamente, a escolha de um novo líder para a Igreja Católica. Espera-se que o símbolo represente algo maior: a aproximação da Igreja na proteção ambiental, em favor da melhoria das condições de vida de todos.
Durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano – Estocolmo, 1972 – o Brasil, nesta que foi o marco internacional para discussão dos problemas ambientais, adotou o discurso formal do crescimento a qualquer custo (especialmente o custo da degradação ambiental). Alguns setores se orgulhavam a ponto de espalhar outdoors com os dizeres "Traga sua poluição...", "Aqui sua poluição é bem-vinda". Na época era muito comum atribuir à pobreza os mais diversos danos ambientais, poluição, contaminação, queimadas, desmatamentos. Hoje esperamos que a Igreja contribua para a construção de um modelo que traga eficiência econômica, equilíbrio ecológico e equidade social. O atual modelo econômico e social é altamente gerador de pobreza, de miséria, de desigualdade social. A pobreza é mais uma vítima deste modelo ultrapassado e fundamentado no consumismo. Tão certo e preciso quanto reduzir e vencer a pobreza é reduzir o consumismo - maior responsável pela degradação ambiental no planeta.
Com a escolha, há oito anos, de Joseph Ratzinger a Igreja se aproximou das questões ambientais. Em 2008 anunciou novos pecados capitais. Ao lado da luxúria, gula, avareza, ira, soberba, preguiça e vaidade foram incluídos poluição ambiental, riqueza excessiva e manipulações genéticas dúbias. A destruição ambiental é anunciada como um insulto a Deus e os novos pecados como inerentes ao processo de globalização. Aqui, pouco a contestar, haja vista que de globalização a Igreja entende, uma vez que foi pioneira na questão ao globalizar o cristianismo e tornar-se uma das instituições mais ricas e poderosas do planeta. Também as últimas campanhas da fraternidade demonstram esse novo alinhamento da Igreja. Amazônia, água, economia e vida, solidariedade e paz são exemplos de temas recentes, com destaque para o lema de 2010: "Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro ao mesmo tempo".
Sublime é a adoção, pela Igreja, da solidariedade a favor do meio ambiente. Nenhuma outra opção poderia alcançar resultados tão eficazes. A solidariedade é tão eficiente que muitas espécies, ao desenvolverem a vida em sociedade, encontraram nesse comportamento o maior aliado para a manutenção (e não extinção) da espécie. Nesse contexto, impossível não lembrar que a escolha do nome, pelo papa, remete a Francisco de Assis: protetor dos animais e padroeiro da ecologia, apresentou comportamento humilde e solidário contrário à histórica busca e acumulação de poder e dinheiro pela Igreja, a qual representava. O comportamento de Francisco 1º ao recusar a cruz de ouro, o carro de luxo e a escolta, entre outras regalias parece ir ao encontro daquele cujo nome foi escolhido para representar seu papado. Afasta-se do modelo atual, que nos apresenta, cada vez mais, um Deus mercadoria. Assim, que cresça a Igreja, e que este se torne fumaça.
Importante lembrar que como a Igreja é maior que o papa, o planeta, o meio ambiente, é maior que a espécie humana. Vão-se os homens, segue a Igreja. Mas a Igreja somos todos nós, ao esperar algo dela é preciso refletir que este algo tem de partir de nós mesmos. Segundo um clichê, onde há fumaça, há fogo. Que estes sejam permanentes e que esta chama seja a da inclusão social, da redução da miséria e da pobreza, da melhor qualidade de vida para todos, através da proteção e da preservação ambiental.

REGINALDO JOSÉ DA SILVA é biólogo pós-graduado em Análise Ambiental e Policial Militar em Londrina

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