Como se não bastasse a situação vergonhosa em que o Brasil se encontra, no âmbito da saúde pública, da educação e da segurança, ainda temos que nos deparar com a Copa do Mundo e seus gastos exorbitantes.
O Brasil irá sediar a Copa das Confederações este ano e a Copa do Mundo de 2014. Com tantos problemas para resolver, a preocupação maior do governo gira em torno dos prazos para entrega dos estádios e a acomodação de vários turistas que irão se instalar no país. Para sediar a Copa, o Brasil teve que se adequar aos padrões da Federação Internacional de Futebol (Fifa), construindo novos estádios, novos hotéis, investindo na segurança e infraestrutura das cidades.
O governo federal está gastando bilhões na construção desses estádios, e irá gastar ainda mais, já que a fim de terminar as obras no prazo apresentou uma medida provisória para driblar as licitações. Com mais liberdade, as empresas envolvidas encontram o caminho aberto para o superfaturamento, e os políticos corruptos a oportunidade de entrar em cena.
A situação fica ainda mais vergonhosa quando alguns prefeitos, que acham que estão colaborando com a cidade, tiram verbas que se destinariam para educação para investir ainda mais em obras para a Copa. Com tanto dinheiro envolvido, o evento acaba se tornando para muitos um "negócio da China", e quem paga a conta mais uma vez é o contribuinte que não vê o retorno dos seus impostos.
Em Manaus, a extravagância é inestimável. A infraestrutura da cidade enfrenta diversos problemas e, mesmo assim, o governo daquele Estado já investiu mais de meio bilhão de reais só na construção do estádio que terá capacidade para 44 mil pessoas, sendo que desse valor mais de 68% foram financiados pelo governo federal.
Já em Recife, onde a população é afetada pela seca e pela falta de saneamento básico, o governo de Pernambuco já investiu mais de R$ 1,4 bilhão nas obras, sendo que 75% deste valor também foram financiados pelo governo federal.
De acordo com os dados apontados pelo governo, mais de R$ 7 bilhões já foram gastos só na construção e reforma dos 12 estádios, e a previsão é que os investimentos para o Mundial alcancem R$ 33 bilhões. É um descaso ver tanto dinheiro público sendo investido em um evento que dura em média 30 dias, enquanto muitas pessoas estão doentes, necessitando de atendimento médico e de leitos em hospitais. Sem contar na segurança pública que tem se tornado um caos, com o aumento da criminalidade e com o atentado de facções criminosas, que mandam e desmandam de dentro das cadeias.
O bom senso deveria pesar antes de investir bilhões de reais em obras que após a Copa se tornarão "elefantes brancos" para alguns Estados, gerando altos custos de manutenção, sem contar na dívida que teremos que pagar, oriunda dos financiamentos concedidos pelo governo federal. É importante receber um evento de grande porte como esse, movimentando a economia do país, gerando novos empregos, desde que aconteça em um momento favorável, com planejamento adequado, onde a economia esteja estabilizada e a infraestrutura não sofra tantas mudanças.
Esses recursos destinados à Copa do Mundo poderiam e deveriam ser empregados na saúde pública, na construção de novos hospitais, na educação e na criação de novos métodos de ensino. Ao contrário disso, temos que ver o nosso dinheiro indo para o ralo. Após o término da Copa, talvez tenhamos onde matricular as crianças, pois a falta de escolas e creches é iminente e, com espaço de sobra nos estádios, talvez dê para matricular todos e ainda utilizarmos os vestiários como leitos para os enfermos e o "carro maca" para transportar os pacientes.

ESTANLEI GONÇALVES DE OLIVEIRA é bacharel em Ciências Contábeis em Londrina

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