ESPAÇO ABERTO
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quinta-feira, 04 de abril de 2013
Dafne Marques de Mendonça 
Oportuna a matéria "Sem memórias: Norte do Paraná esquece seus patrimônios" (Reportagem, 24/3). A aprovação da Lei de Preservação em Londrina é urgente para alavancar as discussões na região. Mas vale destacar um aspecto que frequentemente se confunde: a reconstrução atrelada ao tombamento. Muitas vezes, um é colocado como consequência do outro, e não é bem assim. O tombamento protege o existente e não o perdido ou o que foi projetado e não feito. Nos dias de hoje, a reconstrução é questionada, pois intenciona suprimir um evento da memória do edifício. No caso do Teatro Ouro Verde em Londrina, se reconstruído, seria suprimido o incêndio de sua história através da tentativa de recriar o que ele era antes.
Reconstruir, mesmo em obras "modernas", é também questionável pelo fato de que entre o projeto e a obra realizada, há um degrau, pois nem tudo que é projetado é construído tal qual proposto. Para reconstruir e não nos basearmos em suposições, é necessário um levantamento atualizado do edifício e prospecções nos materiais e revestimentos para saber exatamente como ele foi feito e como está hoje. Estes levantamentos são detalhados, e para fazê-los é necessária a presença do objeto real.
Está certo que o caso do Ouro Verde é de catástrofe e de comoção popular e isto faz, muitas vezes, as exigências incidirem sobre o tema da reconstrução. Mas o perigo de reconstruir é cair em muitas invenções e pouca autenticidade. Ou seja, ficaremos com um edifício que nem é de hoje, nem de ontem, sem sabermos ao certo o que de fato ele é.
A arquitetura contemporânea, ao se deparar com estas situações, insere a nova intervenção no presente, ou seja, em um caso como o do Ouro Verde, elabora um projeto que pertença ao tempo atual, sem que se perca a essência do antigo. Isto porque não se trata de um simples projeto de um novo teatro, sendo fundamental aproveitar o que restou e compreender os significados atribuídos ao antigo edifício, mas os elementos novos não devem "fingir" ser o que não são.
No Ouro Verde, os remanescentes do incêndio devem ser mantidos a qualquer custo, pois são o que temos de mais autêntico. Como o que restou foram as paredes externas e elementos da fachada, a nova proposta poderia aproveitá-los. Para ilustrar, segue três exemplos de projetos contemporâneos que intervieram em edifícios tombados pós-catástrofes e incêndios. Nestes, a intervenção é marcada como evento do presente, sem "mascarar" o ocorrido.
Intervenção no Parlamento Alemão em Berlim: a cúpula ruiu com um incêndio durante o golpe nazista e é reproposta em intervenção de Norman Foster com uma linguagem contemporânea. Podemos entrar na nova cúpula (algo impossível no passado) e os materiais e forma são assumidamente novos, apesar de se manter a "ideia" de cúpula.
Kolumba Museum em Cologne na Alemanha de Peter Zumthor: aproveita fragmentos de uma igreja bombardeada na segunda guerra mundial. Estes remanescentes são mantidos para a criação de um museu e áreas de visitação a partir da ruína.
Museu de Caraça no Santuário de Caraça em Minas Gerais de Rodrigo Meniconi: uma das alas do antigo colégio foi incendiada. As paredes externas remanescentes do incêndio foram mantidas assim como os sinais do sinistro. O edifício em vidro do museu situa-se dentro da ruína.
Está na memória dos londrinenses o dia do incêndio, dia de luto e de tristeza. O que será feito interessa a todos, portanto, devemos debater sobre a melhor estratégia e chegar a um resultado que represente Londrina.
DAFNE MARQUES DE MENDONÇA é mestre em Conservação e Restauração pela Universidade Federal da Bahia e arquiteta em Londrina
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