ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de março de 2013
Flávio Montenegro Balan 
Querida vó Nete, infelizmente a senhora não pôde ir à missa do centenário de D. Geraldo Fernandes. Então, eu vou contar como é que foi. Sabe, vó, é o mínimo que eu posso fazer em retribuição - pois praticamente fui criado dentro da sua casa...
Foi uma linda celebração. A Catedral estava cheia de gente. Quando as irmãs entraram carregando as bandeiras de todos os países em que a Congregação Claretiana realiza trabalhos missionários, todo mundo ficou emocionado. Junto com as bandeiras, carregavam fotos do d. Geraldo e do papa Francisco. Lá estavam o governador, o prefeito, várias autoridades, quase todos os padres da Arquidiocese e, principalmente, os amigos fiéis que d. Geraldo fez em Londrina, acompanhados dos filhos e netos. Tive a honra de fazer a segunda leitura da missa - uma passagem da Carta de São Paulo aos Romanos. Que emoção, vó!
A senhora e o vô Edmilson Montenegro chegaram a Londrina em 1953. Três anos depois, chegou d. Geraldo, para ser o primeiro bispo (depois arcebispo) da cidade. Naquela época, o asfalto só ia até o prédio dos Correios. O Cemitério São Pedro nem tinha muro. Eram tempos difíceis. Tempos que exigiam pessoas dispostas a trabalhar duro pela cidade. Pessoais iguais à senhora, ao vô, ao d. Geraldo.
Muitos trabalhavam para produzir riquezas materiais: plantar café, fomentar o comércio, construir casas. D. Geraldo, sem descuidar do progresso da cidade, trabalhava com os bens espirituais. Em 25 anos de Londrina, nosso querido arcebispo foi o grande interlocutor das coisas da terra e das coisas do céu. Conversava com todos, sem perder a firmeza de princípios. Se estivesse entre nós, estaria lutando pelas causas da cidade - por exemplo, a duplicação da PR-445.
Vô Edmilson era um bom pescador. Ele e d. Geraldo organizaram várias peixadas para o pessoal do seminário. Tornaram-se grandes amigos; uma amizade que surgiu quando o vô ajudou d. Geraldo a construir o seminário e outras obras da Igreja em Londrina.
Eram amigos de verdade, desses que estão juntos na alegria e na tristeza, na festa e nas dificuldades. Um dia, o vô e o d. Geraldo foram juntos de automóvel levar um seminarista ao médico em Apucarana. Sobre o que conversaram na viagem? Não sei, mas fico imaginando.
Imagino que agora o Vô Edmilson e o d. Geraldo estejam conversando lá no céu. Talvez falem daquela passagem bíblica em que Jesus diz a Pedro e André: ''Vinde após mim e vos farei pescadores de homens.''(Mateus 4,19)
Para construir uma cidade tão bonita quanto esta, uma cidade que a gente ama tanto, é preciso contar com homens e mulheres de muita fibra, de muito coração. Pessoas que não desistem diante da primeira dificuldade. Pessoas que pensam no ''nós'' antes de pensar no ''eu''. Gente igual a vô Edmilson, a vó Nete, a d. Geraldo.
Na missa de terça-feira, vó, d. Orlando Brandes lembrou que também era Dia de São José. Essas coisas não acontecem por acaso. Assim como José foi o guardião de Jesus, d. Geraldo foi um pai para a nossa cidade. E um pai que se desdobrava em vários: sacerdote, missionário, pregador, teólogo, professor, escritor, comunicador, jurista, conselheiro espiritual... Só o fato de ter fundado a Congregação Eucarística, que começou pequenina e hoje está em cinco continentes, já lhe garantiria um lugar na história. Mas ele foi além. É impossível falar na história de Londrina sem citar d. Geraldo Fernandes.
Antes de morrer, d. Geraldo deixou seus olhos para um amigo cego. Na verdade, vó, esse amigo somos todos nós. Hoje vemos Londrina com os olhos de d. Geraldo. Em seu testamento espiritual, ele disse: ''Não tenho nada, não deixo nada!'' Na verdade, ele estava sendo modesto. Deixou uma cidade.
FLÁVIO MONTENEGRO BALAN é presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil).
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres (55 linhas) e no mínimo 1.600 caracteres (25 linhas).
Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br


