A Semana Santa é o transbordamento do amor de Deus pelo mundo. O coração de Deus fala ao coração do mundo. Amor de Deus e Semana Santa são sinônimos. Descobrimos o amor ilimitado, excessivo, incondicional e imerecido de Deus por nós. A fé é o acolhimento deste amor. Sem fé, a Semana Santa é puro negócio: chocolate, bacalhau, feriadão, acidentes no trânsito, etc. A Páscoa é a máxima declaração e prova do amor de Deus pela humanidade. É necessário crer no amor de Deus.
Na quarta-feira santa acontece a solene missa do Crisma onde são abençoados os óleos do batismo, da crisma e dos enfermos. Neste dia, os presbíteros renovam suas promessas sacerdotais. Celebramos, assim, o amor de Pai que nos eleva à dignidade de filhos; o amor do Espírito Santo que nos unge e confirma no amor fraterno; amor materno de Jesus que nos dá o remédio para nossas feridas e doenças e o amor de afeição de Deus pelos sacerdotes como servidores do seu povo amado e santo. Só os amados amam. Só os amados mudam. Não podemos viver num "ateísmo afetivo".
Quinta feira santa é o dia do amor exagerado, excessivo, demasiado e indizível de Deus dando-nos o dom da Eucaristia. Deixemo-nos tocar e enamorar por este mistério. Quanta grandeza, beleza, nobreza e simplicidade do amor de Deus no pão consagrado. Que mais poderia Deus ter feito? Como Jesus é pobre e simples na Eucaristia, dizia São Francisco. A manjedoura, a cruz e a hóstia são o amor de Deus em sua máxima expressão.
Neste dia celebramos também a instituição do sacerdócio pelo qual o amor eucarístico atravessa os séculos, de modo que Jesus é sempre nosso contemporâneo. O amor de Deus é um amor de amizade, amor esponsal, amor maternal. Ele amou primeiro. Existimos porque somos amados e subsistimos graças a este amor. Deixemo-nos cativar, fascinar, seduzir, atrair mediante tanto amor. Somos amados até ao ciúme. Deus tem ciúme de seus amados. Ele diz: eu cuido de ti, esqueço teus pecados, chamo-te pelo nome, carrego-te ao colo, te aprecio, és meu. Deixemo-nos amar. O amor de Deus é irrenunciável, infalível, imensurável.
Sexta feira santa é a manifestação do amor misericordioso, compreensivo, paciente de Deus por nós. Olhamos para o amor que vem da cruz, das chagas, do sangue, da tortura, da humilhação, de Jesus. Diz Pascal "Jesus na sua paixão pensava em mim". Paulo Apóstolo escreve que Jesus se tornou pecado e maldição por nós, carregou nossas culpas, tornou-nos justificados, santos, inocentes e filhos de Deus. Olhando para o crucifixo Santo Afonso de Ligório rezava: "É assim que se ama". Jesus é o amor que morre em nosso favor. Amor de esquecimento de si e elevação dos outros.
Jesus, suspenso na cruz, não tem apoio na terra. Só o Pai o ampara. Ele é Deus ferido de amor por mim e por você, caro leitor. Que o amor do Crucificado transpasse o nosso coração. Nosso presente de Páscoa a Jesus seja expresso numa mudança de vida, numa conversão real e corajosa. Possamos dizer: "fui conquistado por Cristo Jesus".
Sábado Santo é o dia do silêncio, do deserto, da contemplação do amor. Amemos o amor. Nossa resposta ao amor de Deus é o amor aos irmãos. Nada comove tanto o coração de Deus como o amor fraterno. Sábado Santo é o dia de agradecer tanto amor.
O Domingo de Páscoa é a celebração da vitória do amor de Deus, amor invencível. Vence a vida, a verdade, o amor. A ressurreição do Senhor é um apelo a que amemos a vida, transbordemos de alegria, manifestemos nossa fé no amor de Deus. "Em vosso Filho Unigênito estava todo o vosso Amor" (Oração da benção do óleo do crisma). Isso mesmo, Jesus é o amor do Pai. O nome de Jesus é amor, sua vida é o amor.

D. ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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