Não cabe, nem de longe, desconsiderar a importância que a igreja ocupou na formação do pensamento Ocidental. Na conta da igreja devem ser creditadas importantes conquistas, tais como as ideias de liberdade e de convivência solidária; de conduta de vida autônoma e de emancipação; além da valorização da moral individual, da dignidade da pessoa e dos direitos humanos. São estes, de certa forma, os ingredientes que marcaram a modernização cultural ocidental desde o século 13 quando da fundação e consolidação das universidades sob o empreendedorismo do papa Inocêncio 3º. O mesmo papa que reconheceu a ordem mendicante de Francisco de Assis e, assim, preparou a igreja para os tempos modernos.
Ironicamente as conquistas da modernidade produziram uma sociedade secularizada, cuja infraestrutura tem atingido e desafiado, cada vez mais, a herança imediata da igreja: a tradição da fé. Fala-se muito em modernização da própria fé, da necessidade de a igreja encontrar novas pedagogias que ajudem a fixar os valores do cristianismo na mente e no coração das pessoas. Este tem sido um grande desafio, considerando que a pluralidade de crenças, albergadas em instituições religiosas, estão em constante disputa com outras pretensões de verdade elaboradas hermeneuticamente por doutrinas concorrentes. Acresce, ademais, que além da querela entre as religiões há ainda o embate do discurso da fé em permanente tensão com as pretensões da ciência e de uma esfera pública cada vez mais secularizada.
É do próprio substrato da modernidade que eclodiu a necessidade do exercício da tolerância religiosa, passo decisivo para a entronização do Estado neutro, gestor da democracia e da coexistência pacifica da pluralidade de valores e de distintas visões de mundo.
Decorre, pois, desse contexto, que a modernidade produzisse a uma consciência reflexiva e descentrada de pressupostos absolutos, adequada para gerir as democracias formais. Daí a necessidade de uma fé igualmente reflexiva, capaz de evitar, por um lado, a sua imposição autoritária – muitas vezes gravitando altissonante e distante da realidade das pessoas – e de outro, a sua diluição em um relativismo vazio e rarefeito. Contudo, com o propósito de responder a tais desafios, ainda no século 19, a igreja lançou mão do argumento de autoridade, definindo o dogma da infalibilidade papal, durante o pontificado de Pio 9.
Bento 16 ao renunciar colocou o papado em uma condição mais humana, desentronizando sua divindade e, ao que parece, projetando outro caminho para a igreja. Não sem propósito, o que se ouviu nos últimos dias, tanto de religiosos quanto de fiéis de modo geral, foi o desejo de ver renascer uma igreja mais transparente, capaz de integrar melhor a participação dos seus membros e aberta ao diálogo.
Na renúncia de Bento 16 ficou implícito o reconhecimento de que a igreja não é tão infalível como se pretendia. Até porque, no percalço da renúncia vieram os escândalos que estamparam a crise interna da igreja: pedofilia, desvios financeiros e carreirismo institucional. A reação pública, no entanto, se diluiu numa indignação sem conteúdo informativo, visto que a crise se ocultou, durante anos, atrás dos escândalos não divulgados. Nova não é a crise, mas a maneira de Bento 16 comunicá-la ao mundo.
Se a igreja nos últimos séculos parece ter sucumbido aos efeitos da modernidade, obra que ela própria ajudou a sedimentar, resta ao papa Francisco o desafio de assegurar uma igreja mais dialógica e com capacidade de conviver com as tensões decorrentes do exercício plural e democrático das sociedades. Mas, acima de tudo, que o novo papa possa reconciliar a igreja consigo mesma, num profundo exame de autocrítica, assim como fez aquele outro Francisco, o de Assis, contemporâneo de Inocêncio 3º.

CLODOMIRO JOSÉ BANNWART JÚNIOR é professor de Ética e Filosofia Política
na Universidade Estadual de Londrina

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