A polêmica em torno desse tema vem crescendo depois que os governos de São Paulo e Rio de Janeiro optaram por internar compulsoriamente os dependentes de crack. Vozes críticas arguiram que se trata de uma medida inconstitucional e antidemocrática, pois fere o direito de ir e vir do cidadão. Polêmica à parte, façamos a nossa própria leitura dessa questão. Boa parte da sociedade assistiu ao gradativo crescimento desses espaços como se não a afetasse, como se as pessoas que por lá passaram a vaguear fossem uma espécie de sub-humanos, fadados ao abandono e ao lixo, uma casta de intocáveis, párias das megalópoles do século 21.
As cracolândias simbolizam o fracasso em gestão pública, escancarando uma horda adoecida que está lá mostrando que não adianta torcer para que a droga a destrua e que desapareça sem deixar vestígios. É preciso enfrentar a realidade com políticas concisas e humanizadas, que não se restrinjam à mera repressão aos casos consumados de crimes associados ao vício e aos traficantes que os alimentam, reconhecendo que são inócuas as medidas destinadas a promover a mera extinção dos seus espaços. Os esforços devem ser envidados no sentido de garantir o acolhimento, tratamento e a reinserção social àquelas pessoas, devolvendo-lhes a vida e a dignidade.
Infelizmente, o que vemos não passa de uma grande hipocrisia que esconde o propósito de promover uma limpeza das ruas para que sejam vistas e frequentadas pela leva de turistas do mundo todo que virá embalada pelos grandes eventos esportivos a serem sediados aqui na "Terra de Santa Cruz" nos próximos anos. É preciso retocar os cartões postais, varrer as calçadas, retirar entulhos, pintar fachadas, caiar meios-fios, cultivar canteiros e "recolher mendigos e viciados", tudo, como diz o ditado, "para inglês ver". O ser humano?! Ah, mas de que humano estamos falando? Do consumidor de grifes ou de crack!
Certamente, a maioria dos profissionais envolvidos nesse trabalho tem propósitos nobres e o que fazem realmente merece nosso respeito, pois se dispõem ao próximo diuturnamente, independentemente da promoção que virá no arrasto dos megaeventos, mas medidas que promovem tal impacto midiático são aquelas carimbadas pelas mãos esquálidas de alguém que se abriga nas sombras taciturnas de um gabinete, mas que detém o poder de manipulação das massas.
Por fim debrucemos sobre a questão crucial: a internação compulsória poderá ser a redenção para os viciados das cracolândias? Na minha experiência, digo que sim! Pelo menos para alguns, aqueles que tiverem a sorte de serem recebidos por profissionais empáticos, que mesmo diante da resistência inicial dos assistidos sejam capazes de lhes dedicar consideração positiva incondicional.
É "conditio sine qua non" que os programas terapêuticos contemplem um consistente plano de reinserção social que inclua o acompanhamento pessoal e familiar pós-tratamento e, sobretudo, acesso às garantias constitucionais, como moradia, educação etc. O mero "recolhimento" das ruas e a hospitalização para curar as sequelas da droga não são suficientes para que aquelas pessoas se sintam verdadeiramente "pessoas". No máximo lhes mostrarão que fazem "parte de um problema social que deve ser erradicado".
É correta a observação de que "ninguém se trata se não quiser", mas esse querer pode ser despertado no contato com pessoas que creiam profundamente na inabalável capacidade de autorregulação do ser humano, desde que se lhe proporcionem as condições ideais para isso. Mas, se o objetivo for promover a mera desintoxicação e a abstinência temporária, será apenas como fincar pregos na areia.

JAIR QUEIROZ é psicólogo clínico em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res (55 linhas) e no mí­ni­mo 1.600 ca­rac­te­res (25 li­nhas). Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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