ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 04 de fevereiro de 2013
Júlio César Paneguini Corrêa 
No campo da administração de empresas aprendemos que quando há um problema temos que utilizar algumas ferramentas para encontrar o mais rápido possível sua causa e uma solução definitiva. Técnicas como a do cinco porquês e Ishikawa são exaustivamente praticadas para se chegar à causa raiz.
Trazendo isso para alguns problemas de um município, de um Estado e de um país, podemos chegar a um resultado totalmente desanimador: que a causa raiz principal está no DNA de todo um povo e para se corrigir leva-se anos. Alguns estudos científicos mostram que para se mudar a cultura de um povo leva-se, no mínimo, cem anos.
Vamos a um exemplo terrível: a tragédia de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. O Ministério Público, a Polícia Civil, a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros certamente possuem muitas outras técnicas, diferentes das aplicadas pela administração é claro, para se solucionar um problema (crime), mas o objetivo sempre será o mesmo: a busca pela causa raiz.
Segundo se noticia: a) o alvará da boate Kiss estava vencido; b) não havia indicadores de saídas de emergência; c) extintores não funcionavam ou quem pegou não sabia utilizar; d) não havia saídas de emergência; e) havia uma superlotação no ambiente; e outras ramificações que certamente a investigação apurará.
Com base nos últimos acidentes graves ocorridos no país, divulgados recentemente pela imprensa, confirma-se que a causa raiz está no DNA, como as tragédias do Gran Circus Norte-Americano, incêndio dos edifícios Joelma e Andorinhas e os acidentes aéreos da TAM e da Gol para citar alguns. Houve toda uma exploração jornalística dos casos, mas de concreto em indenizações e punições aos responsáveis não se resultou em nada até agora. Uma sobrevivente da tragédia do Gran Circus em 1961, por exemplo, perguntada se houve alguma indenização ela respondeu: "Sim, houve. Ganhei uma peruca".
Os leitores então poderão estar se perguntando nesta altura do artigo : qual a relação entre o DNA e as tragédias citadas? Vamos lá. No caso específico da última tragédia, de Santa Maria, que infelizmente não será a última, o alvará estava vencido por um mero procedimento (de papel só) e, certamente, seria renovado por um amigo na prefeitura ou no Corpo de Bombeiros. Ou mesmo sendo contra a lei, tratava-se de um "procedimento do jeitinho" para ajustar as coisas, isto quando este documento não é comprado, que é o mais provável. Este jeitinho em tudo que estamos acostumados está no DNA.
O jeitinho está em você comprar produtos em outros países e escondê-los nas bagagens e porta-malas de um carro para não pagar impostos. O jeitinho está em aproveitar sua amizade em um banco e não enfrentar a fila. O jeitinho está em se aproveitar de inocentes e despreparados e ganhar horrores em um negócio e contar para todo mundo para se achar o "the best". O jeitinho está em aproveitar as amizades em órgãos públicos e "comprar" certas situações. O jeitinho está em não devolver o troco errado. O jeitinho está em sonegar impostos. O jeitinho está em prejudicar clientes nos pesos das mercadorias. O jeitinho está em passar a escritura por um valor menor para pagar menos imposto (este já virou até regra) e torcer para que o futuro comprador (é claro que isto dará certo sim) peça também o mesmo e resultar em um menor imposto de renda.
Discuto sempre com alguns amigos mais chegados que todos nós devemos ter cuidado em falar em ética. Pense bem antes para não passar vergonha.
Qualquer resultado que se chegar com as investigações da tragédia de Santa Maria não resultará efetivamente em nada. Sempre alguém vai dar um jeitinho e até pagar por isso, pois a causa raiz é muito mais séria que imaginamos, está no DNA de todo um povo, infelizmente.
JÚLIO CÉSAR PANEGUINI CORRÊA é administrador de empresas em Santo Antônio da Platina
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