Sob a ótica da "gestão da atenção", o programa Big Brother Brasil (Rede Globo) é um grande captador da atenção difusa. Este tipo de atenção é caracterizado por sua superficialidade. Trata-se de um tipo de programa que não exige muito esforço cognitivo e pode ser visto de modo esporádico, que não compromete a compreensão do contexto.
Aliás, esse tipo de atenção vem sendo cada vez mais utilizada, principalmente pelos jovens, na medida em que dedicam muito tempo em atividades que não exigem atenção mais profunda (atenção focada).
Gilberto Dimenstein certa vez fez um comentário sobre o "cérebro de pipoca", termo definido pelos pesquisadores da Universidade de Stanford, em relação aos jovens que são expostos a um excesso de estímulos e informações que os levam a ter dificuldades para lidar com o cotidiano. Segundo ele, o distúrbio do cérebro de pipoca é mais um fato para mostrar a crescente preocupação sobre o excesso de informação: a dificuldade de separar o que é relevante.
Diante disso, fica claro: o BBB continua contribuindo para o exercício contínuo de atenção difusa. Os seres humanos têm sua atenção captada quando há a percepção de fatores de risco, comportamentos diferenciados, novos e inusitados ou contextos relacionados a coisas e questões que apreciamos ou estamos interessados. Então, fica a pergunta: o que chama a atenção de milhões de pessoas para um programa com pessoas confinadas e sem muito o que fazer?
A TV, o cinema e outros meios de entretenimento sabem, há décadas, que trazer público é uma arte de captação da atenção. Por isso, cartazes, trailers e outras chamadas são sempre coloridos, diferentes e recheados de imagens atrativas. E nesse contexto de curiosidade, questões como sexo, violência e o proibido são elementos captadores de atenção. Lógico que o grau de atratividade desses elementos difere de pessoa para pessoa. Mas é fato que sexo, violência e coisas que não se fazem em público são elementos eficazes de captação de atenção e isso explica, em boa parte, o sucesso de reality shows como o BBB.
Nos estudos da gestão da atenção comentamos a chamada "Síndrome da Batatinha Frita", no qual se exemplifica a situação ao se montar um prato com saladas, legumes, arroz, feijão, carne e batatas fritas. A primeira garfada, quase que inevitavelmente, será na batatinha frita. Afinal, ela é saborosa e prazerosa. Acredito que, em parte, isso explica a audiência do BBB: ele não é nutritivo e pouco agrega em termos de uma alimentação saudável. Mas é, para muitos, saboroso e prazeroso. Daí, separar o que é relevante do que é "gostoso" se torna um grande desafio.
Escolher algo a que vamos assistir e que vai exigir de nós concentração, raciocínio e compreensão é optar por uma coisa que vai contra o padrão do "cérebro de pipoca" de consumo rápido, superficial e com atenção dividida. Estamos em uma sociedade cada vez mais caracterizada pela atenção superficial, dividida e de mudanças constantes de foco e, portanto, a atenção focada, com exigência intelectual elevada e com tempo de fixação em um foco único vai se tornando algo escasso. Daí a opção de muitos – talvez até da maioria – pela atenção difusa e pouco focada.
Portanto, explicar um pouco a questão da atenção em relação ao BBB é algo que se mostra complexo. O fato é que a cada ano esse tipo de programa se mostra mais desgastado, mais apelativo e a tendência é de extinção. O ruim é constatar que logo aparecerá outro programa que fará uso das mesmas fraquezas humanas para obter audiência na qual a adesão tende a ser a mesma, ou seja, maciça.
Mas, como já diria Dimenstein, "as pessoas estão cada vez mais com dificuldade de separar o que é relevante".

HENRIQUE JOSÉ CASTELO BRANCO é coordenador do Centro Universitário Uninter

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em Curitiba e autor do livro "Gestão da atenção"

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