ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Ronaldo Ferreira dos Reis 
O ''momento Sputnik'', citado em dezembro de 2010 pelo presidente Barack Obama, refere-se ao ponto de inflexão que levou os Estados Unidos a investirem pesado no ensino (particularmente de matemática e ciências), pesquisa e desenvolvimento, sobretudo para vencer os russos na corrida espacial.
Esse momento é descrito de modo testemunhal por Anna Verônica Mautner, no prédio da ONU, em 1957, a poucos centímetros de Andrei Gromyko, que desfrutava silenciosamente da vitória. Vale a leitura completa do artigo. Esse ''momento Sputnik'' foi decisivo para a reação dos EUA nos anos que se seguiram, e o restante é história.
Em 1969, adolescente, vi extasiado a transmissão ao vivo da descida do homem na Lua. Motivado, inscrevi-me no ''curso de Cosmonáutica'' da antiga Faculdade de Ciências e Letras de Londrina, embrião da UEL. Numa das aulas, aprendi por que um satélite não cai na Terra. Bem, na verdade, ele cai (sempre cai!) mas ali, em órbita, as forças físicas interagem para mantê-lo em equilíbrio. E quem me explicou foi um professor-engenheiro.
Esse professor continuou a me ensinar, então como patrão, e eu, como um estagiário em sua empresa de pré-moldados. Ali aprendi a ''ler'' projetos arquitetônicos, a ser desenhista, a tirar cópias de plantas... Certo dia, fascinado pela firme e bonita ''letra de engenheiro'' dele, perguntei-lhe como fazer para ter uma letra assim. Ele sentou-se, riscou linhas paralelas, escreveu o abecedário maiúsculo e minúsculo e os números de 0 a 9 e me desafiou: ''Treine isso até sua mão doer, e em duas semanas sua letra não será a mesma''. Com essas mesmas palavras, desafio a quem me pede.
Na minha turma de Engenharia Civil da UEL, um aluno se destacava pela liderança bem-humorada, meio irreverente. Assumiu o cargo por aclamação geral da turma, justamente pela ascendência sobre os colegas, também pela interlocução com os professores, sempre ajudando nos inevitáveis conflitos de parte a parte. Nunca abriu mão de suas famosas tiradas, como ''eu tenho um tio...'', quando achava que alguém estava se gabando demais, ou com espirros estrondosos no meio da aula mais silenciosa, sem que o professor descobrisse de onde partira o barulho.
Ele prosseguiu na iniciativa privada, articulando como um lutador pela classe e pela melhor execução da engenharia na cidade. O professor, já aposentado da UEL e ainda ativo em sua empresa, recebeu-me, anos atrás, em seu escritório. Falou-me do desgosto de ver uma pesquisa sua sobre estacas, feita com dinheiro próprio e no pátio de sua empresa, ter sido recusada pela UEL, não sei em que circunstâncias, por ele ''não ser doutor''. Não sei o porquê de a UEL não outorgar título de notório saber a pessoas como esse professor, os verdadeiros pioneiros do ensino universitário de Londrina. Faça isso, magnífico; a cidade lhe agradecerá.
E nossa Londrina? A ''mais paulista e cosmopolita das cidades do interior do País''? Hoje atrás de Pato Branco e Maringá em termos de ensino e IDH. Iniciativas precisam ser tomadas para que não precisemos de uma nova ''geada negra de 75'' a mudar (para melhor) os rumos desta cidade.
Também o Brasil necessita de seu ''momento Sputnik''; deixar de ser um exportador de commodities e tornar-se exportador de tecnologia. Este é o momento; não pode ser negligenciado.
Isso começa por resgatarmos a memória daqueles que nos moldaram e influenciaram nossa carreira profissional: minhas gratas homenagens ao (eterno) professor engenheiro Elias Plácido Vieira César e ao engenheiro Baiano, vulgo Antônio Carlos do Nascimento.
RONALDO FERREIRA DOS REIS é engenheiro civil em Santo André (SP)
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