Águas límpidas
Santo Cremasco

Águas límpidas não são o mesmo que águas limpas. Estas são apenas o contrário de águas sujas, enquanto as primeiras são naturalmente puras e cristalinas. Nos pequenos córregos, ao pé das nascentes, é onde se podem encontrar águas límpidas. Elas vêm e passam com calma, refletem a luz do sol ou da lua e vão se juntar a águas maiores dos rios e do mar. Conquanto as águas mais volumosas possam, às vezes, ser limpas, todavia não são límpidas.
As águas límpidas dos córregos caminham em golfadas, dançando e cantando no leito raso, ou então mostram pequenos goles parecendo crianças alegres a seguir os pais num passeio descontraído. As águas límpidas que passam entre os seixos e pedregulhos são mais afoitam e inquietas. Não se intimidam e seguem ligeiras e sempre em frente. Há outras que se quedam calmas, quase inertes nas pequenas vazantes ao longo das beiradas. As inquietas vão para nunca mais voltar e as calmas ficam num bailado de vai não vai, às vezes escorrem de volta ao leito, mas nunca de uma só vez. Vão alimentando a correnteza como um contagotas. São águas meio serenas, meio preguiçosas como se não tivessem certeza do caminho ideal, e ficam à espera de melhor solução para o seu existir.
Os pássaros, insetos, animais e os homens se fartam com as águas límpidas. São águas que rejuvenescem, reavivam e alegram quem as consome. O som mavioso de tais águas claras e cristalinas pelas beiradas, nas margens e por entre gramas e arbustos encantam o ambiente. É como uma flauta doce anunciando as manhãs e os anoiteceres. Águas límpidas são cada vez mais raras, estão se acabando. Nem os aquíferos resistirão à crescente poluição. Talvez, no futuro águas puras sejam lembradas e referidas como lendas do passado. Lendas que narradas por pais e professores encherão as crianças de curiosidade e admiração por algo tão bonito e refrescante, mas difícil de acreditar que um dia existiram.
SANTO CREMASCO é advogado em Londrina.

Exagerada difusão da violência
Walmor Macarini

Nunca como agora as televisões resolveram apelar para a intensificação do noticiário sobre as desgraças humanas e os casos de violência no geral. Ocorre que o mal dos delitos e tragédias não reside apenas neles próprios, mas na contaminação que geram nas mentes e na atmosfera que envolve a todos. O inconsciente coletivo, impregnado de carga tão densa, acaba robustecendo ainda mais a inclinação para as atitudes brutais daqueles já propensos. A isso se dá o nome de emulação. A exaltação de um fato - bom ou mau - pelo movimento das imagens, pelo som, pelas cores das telas e pelo poder da palavra impressa, ademais com o adicional de bem elaboradas edições, incita à ocorrência de mais acontecimentos da mesma natureza.
Tais veículos de comunicação perdem as medidas quando tratam, sobretudo, de assassinatos que podem causar grande comoção popular. Para enriquecer o drama, colhem depoimentos de mães e pais, irmãos, parentes e amigos das vítimas, sumetendo-os a verdadeiras torturas emocionais - pois sabem que dali extraem lágrimas e dolorosos lamentos - se já não bastasse o que estão sofrendo. Quanto mais se fala de uma coisa ruim, mais ela se agiganta, gerando uma corrente maléfica que atinge a todos - os diretamente envolvidos e os que vêem e ouvem. E há comentaristas dos noticiários policiais que se arvoram em juízes e ditam sentenças. Alguns teatralizam enfurecimentos.
É certo que boa parte da opinião pública aprecia, a tomar como base a audiência desses programas. Porque o poder da indução encontra ali um campo fértil. Salvam-se as exceções, pois também são muitos os que abominam esse noticiário. Há formas mas amenas de divulgar tais notícias, sem tanto alarde e sem ocupar demasiado tempo e espaço na mídia. Um pouco de moderação desanuviaria o clima tão denso que essas tragédias geram e - acredito - haveria uma diminuição do índice de criminalidade. Essas correntes negativas nutrem-se de si mesmas e se alastram com um vigoroso poder de recriação e corrosão. Orientações e alertas contra os perigos da insegurança públic

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina.

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