A sociedade está deteriorada. Religião, família e governos estão desacreditados. Vivemos uma crise não apenas econômica, mas social.
O mundo melhor não sai do papel, a sustentabilidade não ocorre e temos uma lógica de consumo exagerado, uma naturalização da pobreza e a legitimação do poder nas mãos dos poucos que detêm as riquezas do mundo.
Nesse cenário de colapso, um tema pouco tratado em jornais e revistas, que deve começar a fazer parte das discussões é a democracia econômica, que toca questões básicas da sociedade como o acesso à igualdade, às riquezas, a serviços públicos de qualidade, e à cultura.
O desenvolvimento econômico colocou a sociedade em uma instância em que reservas naturais de água, petróleo e de alimentos passaram a estar em risco. Considerando o século 20 e o regime de consumo impulsionado pela industrialização, houve prejuízos tanto das condições de vida da sociedade, quanto da própria condição de crescimento.
Somando-se a isso, as mazelas sociais intensificaram-se, agravadas pela marginalização do trabalho, sucateamento do Estado, pelo avanço do consumo, pela concentração de renda e pela corrupção dos governos.
Essas condições criam um estranhamento social, onde prega-se a democracia e o acesso, os direitos e deveres, mas restringem-se justamente as condições que tornariam possíveis a igualdade e a participação de todos nos resultados que o livre mercado promete.
O problema central da desigualdade social, traz consigo a violência, a má formação de nossas crianças e jovens, o desemprego, a criação de bolsões de pobreza, e questões como o esgotamento dos recursos naturais, a proliferação de diferentes ''ismos'' (racismos, bullying, assédios), além de doenças da modernidade, vide depressões e dependências químicas que vão do crack aos antidepressivos.
A agenda do problema coloca uma necessidade de alternativas, mesmo que sem uma ruptura imediata com a forma de sociedade que temos. Essas alternativas solucionariam o problema da desigualdade e da destruição social, promovendo um retorno às raízes de uma vida mais simples, em que as pessoas se socializariam, seriam menos materialistas e onde os problemas socioeconômicos seriam resolvidos.
Boaventura de Souza Santos diz que a necessidade de alternativas existe por conta de que as pessoas estão inquietas, mesmo sem a percepção de que os problemas são mais profundos que a pobreza. Celso Furtado coloca uma necessidade de que o poder seja desconcentrado das mãos dos ricos.
Ladislau Dowbor defende que a democracia econômica seria uma alternativa viável, desde que: o custo do ônus social seja repassado às organizações e membros ricos da sociedade, em uma inversão de impostos; que os governos trabalhem melhorias nos serviços públicos, financiadas por essa inversão de impostos; que a corrupção seja combatida com duras reformas legislativas e pela capacitação do funcionalismo público; que políticas públicas tenham compromisso social e vínculo restrito com os interesses coletivos e não que sejam políticas vinculadas aos interesses de grupos empresariais ou políticos; que o Estado observe o homem e o meio ambiente como fatores indispensáveis para que o sistema continue funcionando.
A democracia econômica prega a igualdade que torne a sociedade emancipada economicamente, capacitada culturalmente, crítica e questionadora dos problemas que a cerca e, por fim,prevê uma sociedade em as pessoas realmente pensem umas nas outras.

IVAN FERREIRA DE CAMPOS é professor e mestrando em Administração na Universidade Estadual de Londrina

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