ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de janeiro de 2013
Amélio DallAgnol 
Nada contra cotas para favorecer negros, pardos ou índios nas universidades públicas, mas desde que sejam pobres. A pobreza discrimina mais do que a cor da pele e força o estudante pobre a frequentar a escola pública, que, via de regra, é de má qualidade, o que contribui para reduzir a sua chance de competir no vestibular de acesso à universidade gratuita. Apenas isto justificaria o privilégio da cota, porque pobreza não tem cor. Também há pobres brancos.
O que dizer àqueles pais brancos que, cientes da má qualidade do ensino pública, fazem das tripas coração para bancar o estudo do filho na escola privada e depois o vê preterido porque é branco e oriundo de escola privada, apesar de melhor classificado no vestibular? O que dizer se este estudante branco for desclassificado para dar lugar a um estudante cotista, mas de família abastada e aluno de escola privada? É racional e justo privilegiar os pobres, mas sem distinção de raça.
O que mais contribui para o sucesso de um estudante ingressar na universidade pública gratuita não são as benesses que o poder pode oferecer, mas a determinação, a dedicação e o esforço. O resto ajuda, mas não é determinante. O que o Brasil precisa - e tem pressa - é de escolas públicas de qualidade para que o cidadão comum não se veja forçado a consumir suas parcas economias para bancar a escola privada dos filhos, a fim de melhor qualificá-los para a universidade. No dia em que tivermos escolas públicas de qualidade, os filhos dos políticos também estudarão nelas, como acontece hoje em todos os países desenvolvidos do mundo. A propósito, onde estudam as filhas do Obama?
Quando assistimos o Congresso discutindo a irreal possibilidade de alocar-se 10% do Orçamento da União para a educação, intuindo que a escola pública no Brasil só está ruim porque faltam recursos financeiros, perguntamos: se a preocupação está no dinheiro, por que, ao invés de gastar fortunas na construção e manutenção de novos estabelecimentos de ensino público que não funcionam, não se estimula o estabelecimento de mais escolas privadas e paga-se escola privada aos estudantes pobres? Certamente, seriam mais bem qualificados e o caixa da União seria beneficiado. Por que não cobrar o ensino universitário público dos estudantes ricos, considerando o gasto exorbitante que o governo tem para mantê-los nesses estabelecimentos? O ensino público/privado no Brasil é um paradoxo: o estudante rico frequenta escolas privadas no ensino médio e desfruta gratuitamente da universidade pública, enquanto com o estudante pobre acontece o contrário: frequenta a escola pública gratuita, mas paga a universidade privada.
O programa de cotas parece justo, mas pode representar um retrocesso para o Brasil, visto que, pela menor qualificação dos universitários cotistas, as universidades públicas poderiam se ver forçadas a reduzir o nível do ensino, a fim de que os cotistas possam acompanhar os ensinamentos, ao tempo em que os alunos mais bem preparados poderiam sentir-se desestimulados pela queda na qualidade do ensino.
Se esta suposição se concretizar, veremos as universidades públicas - hoje tidas como as melhores - serem lentamente preteridas pelos futuros universitários, em favor das privadas que, como consequência, melhorarão em qualidade, igual aconteceu com as escolas do ensino médio e fundamental. Já vi este filme antes. Nos anos 70, fui contemplado com uma bolsa de mestrado e doutorado na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos. As exigências para o ingresso haviam sido muito facilitadas, presumivelmente com o propósito de atrair mais estudantes estrangeiros e assim reforçar o caixa da instituição. Quando concluí o treinamento em 1979, a universidade havia retornado às exigências anteriores, porque concluíra que o nível havia caído por causa da menor qualificação dos estudantes estrangeiros. Qualquer semelhança com o que poderia acontecer no Brasil é mera coincidência.
AMÉLIO DALLAGNOL é engenheiro agrônomo em Londrina
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