ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de janeiro de 2013
Jair Queiroz 
Um dos ''fantasmas'' que assombram os pais é o do envolvimento de um filho com as drogas. Elas estão disseminadas por todos os segmentos sociais, não poupando as escolas, aliás, esse é um dos seus espaços mais frequentados, as praças públicas, as praças desportivas, os cinemas e bares. É uma epidemia. Recentemente, lemos e ouvimos nos principais noticiários que a ''guerra contra o tráfico'' havia revelado outro dado sinistro: uma nova droga que ronda as esquinas e becos e ameaça a nossa juventude, feita com a adição de maconha ao crack. Como disse um amigo, impressionado com a revelação, ''uma paulada nos neurônios''.
Ao analisarmos tecnicamente, mesmo sem sermos especialistas em farmacologia ou em conhecimento similar, entendemos que o resultado da mistura de dois princípios ativos - ou seja, a característica de um fármaco, responsável pelos seus efeitos sobre o organismo - é que determina seus resultados. No caso da ''nova droga'' temos de um lado a cocaína, que é o princípio ativo do crack, cujos efeitos são estimulantes do sistema nervoso central, e de outro o tetrahidrocanabinnol, ou delta 9 THC, que é a substância presente na maconha, cujo efeito no cérebro é relaxante e, por vezes, alucinógeno.
Embora a associação do crack com a maconha seja novidade, pelo menos para a imprensa, quem atua no tratamento de dependentes não vê da mesma forma. Desde o princípio dos anos 80, na Região Norte do Brasil, mais especificamente nos Estados que fazem fronteira com a Bolívia, a população e as autoridades enfrentam problemas com uma droga batizada regionalmente com o nome de ''mela'' ou ''melado'', numa alusão à sua característica pastosa que se liquefaz em pouco tempo, ''melando'', isto é, sujando. Trata-se de uma composição de pasta base de cocaína - uma das fases primitivas da transformação da folha da eritroxilon coca lamark, para o cloridrato de cocaína - e a maconha. A mistura é fumada na forma de um cigarillho e tem efeitos intensos sobre o sistema nervoso central, pois a fumaça inalada vai diretamente para os alvéolos pulmonares e dali, através das artérias, ao cérebro.
Quimicamente não há diferença entre esse uso e a forma que frequentou os noticiários nos últimos tempos. Em ambos os casos é a forma de administração que difere seus efeitos dos efeitos da cocaína em pó (cloridrato). Enquanto o pó é aspirado pelas narinas para ser absorvido pela mucosa, indo para a corrente sanguínea e circulando pelo corpo, num processo que pode levar de 15 a 20 minutos antes de produzir os efeitos, os componentes do crack e da mela, chegam ao seu destino em menos de dez segundos com praticamente 100% de absorção. Mesclam características dos psicolépticos (estimulantes), resultado da entrada da cocaína no sistema nervoso central e dos psicoanalépticos (depressores), ou psicodislépticos (alucinógenos), produzidos pelo THC.
Sem ter a menor noção da interação química produzida em seu corpo, o usuário avança na necessidade e na quantidade, buscando o prazer artificial proporcionado pela química. Essa é a armadilha! Em pouco tempo o procurado prazer não será mais possível e o uso se tornará uma tentativa interminável de diminuir a intensidade do sofrimento causado pela falta, ou seja, já não se buscará mais o ''prazer'' dos efeitos, mas o alívio ao ''desprazer'' provocado pela falta da droga nos neurônios.
Essa variação advém do curto tempo entre o efeito ''euforizante'', obtido no ápice da concentração no cérebro e o ''disforizante'', que ocorre numa proporção inversa após o fim do efeito, em poucos minutos, não dando tempo ao cérebro para se restabelecer. Os sintomas são a ansiedade, depressão, irritabilidade, confusão mental, tremores, cólicas, sudorese. É o que na gíria se chama ''fissura'', um desejo incontrolável de consumir outra dose na tentativa de aliviar os sintomas, enquanto esses se tornam cada vez mais intensos.
Se não há novidade na fórmula, há novidade na ''onda'', na moda, na expectativa de mais um caminho para se chegar ao êxtase, onde toda dor e toda fraqueza desaparecem. Um lugar irreal, fruto da utopia humana de atingir o inatingível estado de bem-estar pleno, indiferente à verdade de que toda busca pelo paraíso artificial produzido pelas drogas, redunda sempre em mais sofrimento.
JAIR QUEIROZ é psicólogo com foco no tratamento de dependentes químicos em Londrina
- Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres (55 linhas) e no mínimo 1.600 caracteres (25 linhas). Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: [email protected]


