ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de dezembro de 2012
Luís Miguel Luzio dos Santos 
Vivemos um período histórico dominado por tamanhas inconsistências, que a reprodução da vida humana na terra encontra-se ameaçada. Socialmente, criamos dois mundos que não se reconhecem, em que uns vivem para consumir e os outros não conseguem sequer sobreviver. Economicamente, as crises tornaram-se a regra e a insegurança a única certeza, numa verdadeira lógica de cassino. Ambientalmente, estamos à beira de um colapso em decorrência da insaciabilidade humana. Isso nos leva a concluir que o modelo socioeconômico que nos trouxe até aqui, não poderá ser o mesmo que nos conduzirá para um futuro decente e sustentável.
É certo que qualquer projeto de transformação, verdadeiramente consistente, terá de ser pensado levando em conta as contingências atuais. Ao mesmo tempo deve ser capaz de projetar um devir desejado e possível, ultrapassando o reducionismo de modelos unidimensionais e que contemple a complexidade, a pluralidade e, principalmente, o respeito à democracia e à diferença.
Ao analisar-se o contexto atual, é fácil perceber-se o protagonismo das empresas, haja vista que se tornaram maiores do que muitos estados nacionais. Todavia, esse gigantismo não vem sendo acompanhado por avanços institucionais condizentes com os impactos gerados no conjunto da sociedade e na própria estrutura social. Continua a prevalecer a gestão autocrática, a concentração desproporcional de poder e renda, o loteamento dos mercados num número cada vez menor de empresas e o uso indiscriminado e abusivo dos recursos naturais, e tudo em nome da maximização infindável dos lucros.
Precisamos avançar em novos modelos organizacionais, numa perspectiva pluralista, democrática, participativa e equitativa, em que o principal objetivo seja o bem-estar social, o respeito ambiental e uma maior estabilidade econômica, seguindo a máxima de que toda a empresa deve democratizar-se e socializar-se à medida em que cresce e se desenvolve. Já se aproximam desse ideal, empreendimentos de economia solidária, cooperativas populares, redes de cooperação, movimentos de defesa e incentivo ao comércio justo, além de empresas com modelos participativos de gestão, abertura de capital aos trabalhadores e com limites à concentração acionária individual. Essas propostas deixaram o plano da utopia e vêm se afirmando em empresas vigorosas, como a construtora paulistana Promon, a metalúrgica Uniforja ou o megacomplexo cooperativo de Mondragon na Espanha.
A empresa democrática fundamenta-se em três pressupostos básicos: transparência nas informações, gestão participativa e distribuição equitativa dos ganhos entre todos os que nela trabalham. Ainda que esse modelo organizacional esteja longe de ser dominante, poderá ser estimulado e potencializado por meio da concessão de vantagens institucionais a entidades que comprovem sua vocação social. Isso poderá ser efetivado por meio de incentivos fiscais, privilégios no acesso a crédito e na participação em licitações públicas, o que certamente estimulará mais empresas a aderirem ao modelo. Não se pode esquecer que o próprio direito de propriedade, garantido pelo artigo 5º, inciso 22, da Constituição Federal, está condicionado ao atendimento da sua função social, por disposição do inciso 23 deste mesmo artigo.
Há que se ter em mente que o desafio da contemporaneidade não está mais em buscar sociedades perfeitas por meio de fórmulas mágicas irrealistas. Deve-se pensar em projetos viáveis, que sejam capazes de ultrapassar a lógica centrada na maximização do lucro e substituí-la pela primazia da maximização do benefício social, com a ambição de ajudar a construir um novo projeto civilizatório, mais democrático, humano e justo, em que todos possam participar.
LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é economista, doutor em Ciências Sociais e professor do departamento de Administração da Universidade Estadual de Londrina
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