Anos sessenta


Os anos sessenta foram os mais lindos e conturbados do século 20 porque havia um ingênuo clima de utopias, de perguntas inteligentes jamais respondidas, de alta produtividade artística e muito por que se revoltar. A revolução que se iniciava com a música dos Beatles, com o cinema da contracultura, com a antipsiquiatria, com a moda assustadora e colorida, com a pop-art de Andy Warhol e com o existencialismo de Sartre, foi tomando forma e tudo aquilo que era proibido parecia não ter fronteiras. Revoltava-se contra o embargo econômico a Cuba. As mortes de Kennedy e King, o protesto de Cassius Clay davam ainda mais força aos movimentos beatniks, hippies e outros tantos.
Imaginou-se no Ocidente que era o momento da era de ''Aquarius'', ou seja, o desprezo ao establishment e ao consumismo. Era chegada a hora de um novo desenvolvimento moral. E tudo isso com o poder das flores. O livro vermelho de Mao era a bíblia sagrada de alguns revolucionários com ou sem causa. Todavia, ''easy riders'' já ensinava que se matava tudo o que não se entendia, o tempo vencia toda a ilusão e, tal qual na Hungria de antes, as ruas de Praga viram o fim da sua primavera com os bárbaros tanques soviéticos em 1968.
Lennon decidiu que o sonho terminara, e os novos filósofos franceses tomaram lugar: ''Deus morreu, Marx morreu e eu não estou bem''. De lá para cá, quem vive nada vê: os heróis de outrora são os tiranos de agora. Aqueles que na América do Sul lutaram por um Estado de direito, ora lutam por direito de Estado (Cristina Kirchner, Zé Dirceu, Genoino, etc).
Os neoditadores de hoje criam piamente que o comunismo era a síntese última do movimento capitalista. Qual nada! Vandré fazia sua mais famosa canção no fim da década de 60 no Brasil; no museu do comunismo em Praga há registros de lindas canções de protesto pedindo perdão pelo não conformismo com a invasão soviética. O sonho de ontem virou a tentativa dos nossos reacionários de esquerda de calar toda a imprensa: é a ''ditadura legítima'' de Argentina, Venezuela e, sonho deles, do Brasil. É sempre assim: revolucionário de ontem; reacionário de hoje. Por isso não confie em ninguém com mais de 30.

VIRGÍLIO TOMASETTI JÚNIOR é professor em Londrina


Roubo da infância


Matéria da revista Veja (24/10) sobre crianças pregando a bíblia, fazendo sermões e chamadas de pastores mirins, é uma alerta sobre como a criança pode ser facilmente vítima da loucura dos adultos. Toda criança é um ser dependente e necessita de um adulto que as proteja e as eduque. Está até na lei. No entanto, muitas crianças foram e continuam sendo vítimas de maus-tratos e tendo seu desenvolvimento comprometido devido à insanidade de alguns.
A criança é um ser em formação. Não tem ideias ainda bem estabelecidas e nem pode responder sobre muitos de seus atos. Na reportagem, alguns pastores, de extrema má-fé, usam crianças para pregarem e assim, quem sabe, chamar mais fiéis e atenção. Ver uma criança pregando moral e até realizando curas deve ser bonito para muita gente. Isso, no fundo, é exploração infantil. Usa-se crianças para obter uma vantagem e rouba-se um tempo importante da vida delas.
Rouba-se a infância e a oportunidade delas se desenvolverem apropriadamente. Crianças devem brincar e não ser exigido delas uma posição que não podem ter. Quando esse tempo para se desenvolver lhe é roubado, a criança paga um preço muito alto. É obrigada a carregar um fardo pesado que exige uma maturidade que ainda não possui. Com isso, ela perde a chance de se desenvolver com naturalidade e de forma saudável. Acaba, então, mostrando uma maturidade que não corresponde a sua realidade interna, ou seja, finge o que na verdade não é. Tudo isso acontece sob os olhares daqueles que deveriam cuidar de seu bem-estar.
Amadurecer leva tempo e qualquer pressa pode ser bastante prejudicial. Dos pastores mirins é exigida uma postura do saber, ou seja, uma posição de autoridade. Se até mesmo um adulto assumir uma posição de autoridade pode ser perigoso, imagine então uma criança. Esses pastores pervertem a criança e rouba-lhes a vida. Roubar a vida de alguém não é só matar, mas é também tirar a chance do outro de viver dignamente.

SYLVIO DO AMARAL SCHREINER é psicoterapeuta em Londrina

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