ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de setembro de 2012
Gaudêncio Torquato 
Os devotos de São Tomé, que só acreditam vendo, começam a perder as apostas feitas com os devotos de São Judas Tadeu, o patrocinador das causas impossíveis. Pois é, o santo que dá um jeitinho nas dificuldades está mostrando o seu poder de milagreiro até na esburacada estrada da política.
Vejam: a Justiça da Suíça autorizou a devolução aos cofres do Tesouro Nacional de US$ 6,8 milhões que estavam na conta do ex-juiz Nicolau dos Santos Neto (Lalau); há poucos dias o Grupo OK, do ex-senador Luiz Estevão, concordou em devolver à União R$ 468 milhões que teriam sido desviados de verba pública para construção do prédio do TRT em São Paulo. O Supremo Tribunal Federal (STF) condenou à prisão um ex-presidente da Câmara dos Deputados, a segunda autoridade na linha de sucessão da Presidência da República; puniu também dirigentes de bancos por gestão fraudulenta. E continua a julgar o caso de ''maior desvio de dinheiro público flagrado no Brasil'', dando sinais de que os culpados no processo que reúne 38 réus serão implacavelmente condenados.
No plano eleitoral surpresas emergem. É o caso de São Paulo, onde um candidato com curto espaço no programa de rádio e TV assume a liderança da campanha.
As situações narradas evidenciam a tese de que por estas plagas tudo é possível. As cartas marcadas do baralho já não ganham o jogo. O País começa a respirar ares de modernização institucional.
Por modernização deve-se entender mudança de valores, atitudes e expectativas. Comporta, como ensina Samuel Huntington, aspectos relacionados a padrões de vida, mobilidade social e ampliação de conhecimentos por meio da educação. São inegáveis os avanços em algumas áreas, apesar de ainda existirem imensos arquipélagos de atraso, particularmente na saúde e na educação. Na frente da mobilidade registra-se o ingresso de 30 milhões de brasileiros na classe C.
A modernização, portanto, soma conquistas em diversas esferas: educacional, econômica, ascensão social, com reflexos na política. Nesta, por exemplo, cria ondas de mobilização pública, motivando os cidadãos a trocar velhos costumes por novos padrões de socialização e comportamento. Intensifica-se o desejo de maior participação da sociedade no processo decisório, situação expressa nas pressões sobre a base política e na escolha mais criteriosa dos atores que farão a representação nos parlamentos e nos executivos.
Na paisagem retocada com as tintas da modernização chama a atenção a multiplicação dos centros do poder. Antes restrito às casas legislativas e ao Executivo da União, dos Estados e municípios, o poder político agora se refunde e se redistribui pela miríade de novos circuitos de representação - movimentos, associações, grupos, entidades em defesa de minorias, gêneros, etnias e categorias profissionais -, que passam a difundir propostas, ocupar e fazer barulho nos corredores dos Parlamentos e da administração pública.
Diz-se, com propriedade, que esta nova ordem política se aproxima de uma meta ansiada pela sociedade contemporânea, qual seja, a democracia participativa. Um julgamento como o da Ação Penal 470, cuja transparência tem sido plena, tem o condão de resgatar a confiança social na Justiça e contribui para jogar uma pá de cal no conceito de que apenas os pobres vão para a cadeia. Nunca se viu uma ação penal ser tão dissecada e submetida a um escancarado portal midiático. A par desse evento, de simbolismo ímpar e impacto extraordinário sobre a área política, constatamos, com alegria cívica, uma montanha de recursos retornando aos cofres públicos. Quantos brasileiros acreditavam nessa hipótese?
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político e de comunicação em São Paulo
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