ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de setembro de 2012
Humberto Yamaki 
Acabo de retornar de viagem a Belo Horizonte. Leio nos jornais a boa notícia de que resolveram enfim recuperar o que restou do petit pave do Calçadão de Londrina. Muito se discutiu sobre o assunto nos últimos anos. O Calçadão implantado em 1977 teve como referência a Rua das Flores em Curitiba. É uma marca de Londrina, reforçada pelo piso de pedras formando motivos geométricos e luminárias em forma de araucárias.
Na recente e insensata substituição do mosaico de pedras naturais por blocos de cimento afirmava-se que, todavia, os motivos geométricos haviam sido mantidos. Nesse meio tempo alguém dava uma versão, equivocada, de que o design era de origem caingangue. Um grupo anunciava a reutilização das pedras retiradas do Calçadão em outro local. Uma praça foi projetada na Zona Sul da cidade reproduzindo o piso e as luminárias do agonizante Calçadão. Enquanto destruíamos o original, uma réplica era construída.
É importante revisar. A técnica de confecção do piso em petit pave é viva e ainda existem profissionais capazes de executar. As pedras não são artesanais ou raras e podem ser adquiridas em lojas de material de construção. O motivo geométrico, criação instantânea de inspiração carioca, não é totalmente inovador, mas marcante. Assim, o que importa no Calçadão é o conjunto de características: o piso petit pave de pedras naturais de cores brancas e pretas, com motivos geométricos e o mobiliário implantado no Calçadão da Avenida Paraná em Londrina desde 1977. A retirada de qualquer um desses itens significa transgressão ou anulação de valor.
O Calçadão em si não é tombado pelo Patrimônio Histórico Estadual ou local. Não existe possibilidade de indicação como Patrimônio Estadual já que a sua importância está restrita a Londrina e região. No entanto, o trecho do Calçadão com petit pave remanescente constitui o entorno do Cine Teatro Ouro Verde, este sim tombado pelo Patrimônio Histórico do Paraná, daí as restrições indiretas às modificações no piso e mobiliário no raio de influência e visibilidade. O trecho em petit pave integra o conjunto Ouro Verde e Praça Marechal Floriano com traçado de 1943. Portanto, reafirmamos a importância da imediata indicação do Calçadão para tombamento como Patrimônio Histórico de Londrina. Poderia ser a primeira experiência de aplicação efetiva da Lei de Preservação que apresentamos há dez anos e que foi aprovada no ano passado.
Voltando ao assunto da visita a Minas, observei que em Belo Horizonte todo o centro histórico é em piso petit pave com pedras de três cores. Caminhando pelas movimentadas ruas centrais, nenhuma pedra solta, nenhum remendo malfeito, mostrando cuidados e uma manutenção constante. O desgaste natural dá dignidade ao conjunto.
Atravessando o centro, passo ao lado de praças históricas. São tombadas pelo Patrimônio Histórico e, como tal, os passeios e jardins são bem cuidados e incrivelmente limpos. Os chafarizes funcionam. Ouço que todas as manhãs, bem cedo, funcionários fazem um mutirão de limpeza. As edificações antigas, representativas de épocas importantes da cidade estão sendo restauradas, colocando em evidência os detalhes de fachadas históricas. Contrastam ainda mais com as construções vizinhas que mantêm suas placas e letreiros firmes a desafiar cada tempo. A cidade se prepara para a Copa de 2014.
Passando por Belo Horizonte, é impossível deixar de visitar o Mercado Municipal. Inaugurado em 1929, é um lugar de uso cotidiano da população e também importante ponto turístico. Percebe-se ali a lenta passagem do tempo, as camadas de história nas mercearias e bares com décadas de existência. Sons, cores, aromas e odores dão vida ao lugar. Isso é o que esperamos de um mercado tradicional, onde é possível garimpar, felizmente, as coisas de sempre nas bancas de sempre.
Finalmente, na viagem de retorno fui de táxi para o aeroporto. Os táxis em Belo Horizonte são de cor branca, trazem elegante logotipo nas portas dianteiras e um discreto luminoso no teto. Ainda assim são reconhecíveis no trânsito. Depois de algumas horas já sobrevoava Londrina. Do alto, a cidade continua exuberante. Logo aterrissei.
HUMBERTO YAMAKI é coordenador do Laboratório de Paisagem da Universidade Estadual de Londrina
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