O partilhar do conhecimento
O conhecimento não registrado em manuais nem descrito em processos de trabalho é um dos principais e mais fugazes recursos de uma companhia, mas infelizmente várias delas só compreendem este fato inquestionável quando aquele empregado com vários anos de casa sai e ninguém mais sabe fazer as coisas daí em diante.
Este é o caso, por exemplo, de uma grande empresa que confia seu principal projeto a três profissionais por considerá-los totalmente capazes de cumprirem a empreitada. Num dia qualquer, no entanto, de uma só vez estas mesmas pessoas recebem uma proposta melhor da concorrência, pedem demissão simultaneamente e deixam a empresa sem saber como cumprirá os novos contratos que foram fechados para os próximos doze meses, afinal até aquele momento ninguém havia cogitado a hipótese de que estas pessoas-chave poderiam não estar por ali para realizá-los.
Mas se engana quem acredita que este problema é comum apenas a companhias graúdas. Imagine a situação de um médico que conta apenas com os serviços de uma secretária responsável por agendar as consultas, recepcionar os pacientes, receber os pagamentos e manter o controle financeiro da clínica, enquanto que ele fica responsável, é claro, pelo atendimento médico.
Ao mesmo tempo, considere que esta profissional secretária seja competente e tenha de se afastar do trabalho de uma hora para a outra. Se ela não conservava as rotinas básicas de forma organizada até então é bem provável que em alguns dias os problemas comecem a aparecer no consultório, não por causa da incapacidade profissional da nova secretária que a substitui, mas simplesmente porque esta ainda desconhece como funcionam as coisas naquele lugar.
As práticas de Gestão do Conhecimento existem exatamente para evitar tais situações e podem ser aplicadas a qualquer tipo de negócio. Ao formalizar os principais processos e registrar o conhecimento disponível - seja ele tácito ou explícito -, esta total dependência de algumas pessoas desaparece, já que você possibilita aos outros profissionais da sua empresa saberem como as atividades precisam ser feitas.
Todavia, para isto é necessário enraizar na cultura organizacional a prática rotineira de todos treinarem a todos, isto é, conscientizar as pessoas de forma plena que sempre há algo a aprender e a ensinar aos pares, superiores e subordinados.
Se muitos profissionais da sua empresa ainda resistem ao compartilhamento de experiências é preciso avaliar até que ponto esta atitude é resultante da crença de que serão descartadas a partir do momento que outras pessoas souberem o mesmo que elas.
E saber que a empresa na qual trabalha pode transmitir algo bem diferente, inclusive por meio do layout das salas. Ambientes amplos, sem portas e com pouquíssimas divisórias são convidativos à transmissão do conhecimento, bem como quaisquer outras iniciativas que favoreçam o acesso mais fácil aos gestores da organização.
Ao mesmo tempo, outra boa prática é formalizar o papel de multiplicador interno junto aqueles que detêm um conhecimento técnico ligado ao negócio e muito têm a contribuir com os demais funcionários quando relatam a experiência que obtiveram ao longo de suas carreiras.
E como se revela um potencial multiplicador? Além de gozar de credibilidade interna graças à cancha acumulada na área, geralmente é alguém que cultiva bons relacionamentos nos quatro cantos da empresa - caso contrário não encontraria ouvintes dispostos a escutar seus aprendizados - e possui o prazer de transmitir aquilo que sabe às outras pessoas.
Quatro séculos atrás o filósofo e político inglês Francis Bacon asseverou a máxima: ''Conhecimento é poder''. Agora o mais certo seria afirmarmos que conhecimento é poder, desde que compartilhado.

WELLINGTON MOREIRA é palestrante e consultor empresarial em Londrina

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