ESPAÇO ABERTO
O olhar amoroso do Pai
Olhar é comunicação, é fala, é mensagem. Trata-se de uma experiência especial na vida humana porque vemos além do olhar físico. Se o olhar humano já é tocante, envolvente, comovente, quanto mais será o olhar de Deus.
As Sagradas Escrituras referem-se constantemente ao olhar de Deus. Vamos aqui eleger alguns destes olhares e sobre eles meditar e tirar proveito. Olhamos bem não só com os olhos e colírios, mas, com o coração. Os olhos falam o que vai ao coração. Vejamos o coração de Deus através de seu olhar.
Em Gênesis 1,31 está escrito que Deus olhou suas criaturas e viu que tudo era bom. Mas quando ele olhou para o homem e a mulher, exclamou: ''Está muito bom''. Deus se alegra, exulta, comove-se diante de suas criaturas. Quão preciosas são aos olhos de Deus a criação e a família, o cosmo e o ser humano. Deus é ''amante da vida'' (Sb 11,26).
Esse olhar de exultação, assombro e maravilhamento do Criador por suas criaturas nos convida a ver Deus em todas as coisas e ao mesmo tempo ter respeito, zelo, cuidado pelo cosmos e o meio ambiente. Deus nos vê com amor. Como é atraente o olhar de Jesus. Que possamos olhar a realidade com os olhos de Deus. Esta é uma graça que cura nossas cegueiras e miopias.
Outro olhar fascinante e especial de Deus está em Êxodo, 3,7: ''Eu vi a aflição do meu povo''. Que olhar extraordinário e libertador. Nosso Deus vê a escravidão, a aflição do povo e desce para libertá-lo. Deus tem coração de mãe e audácia do pastor. É um Deus que chora e que tem lágrimas nos olhos e promete enxugar toda lágrima. Deus sofre quando nós sofremos porque nos ama e tudo faz pela conquista da nossa libertação. Ele viu também a aflição da escrava Agar e veio em seu socorro (Gn 16, 13). Deus tem um olhar comprometido com a realidade do povo, um olhar de misericórdia e de libertação.
Como não aprender com Deus a termos olhos misericordiosos, conscientes, libertadores, proféticos e corajosos? Quanta cegueira social nos envolve. É mais fácil desviar o olhar ou fazer que não vemos. O Deus que vê seu povo na aflição é o mesmo Pai que vê a volta do filho perdido e corre ao seu encontro. Jesus curou muitos cegos. Que tenhamos olhos fixos nele para vê-lo no pobre, no doente, no pecador.
Em I Samuel 16,7 está escrito que ''nós vemos as aparências, mas, Deus vê o coração''. Que verdade encantadora. Deus não se deixa enganar pela face, pelos traços físicos, pelo exterior. Seus olhos fixam o nosso coração, a nossa consciência o nosso interior. Eis o Deus do olhar profundo, amoroso, íntimo. Tudo é claro aos seus olhos. Ele está enamorado de nossos corações, e deixar-se comover de amor por nós. Na oração acontece o encontro do olhar de Deus que fita nossos olhos e vê o nosso coração. Somos convidados a amar de todo o coração, ao Deus que olha em nossos olhos e vê nosso coração, vê o oculto.
Deus sonda os corações e sabe o que necessitamos: ''Ele formou o coração de cada um e está atento a cada uma de suas ações'' (Sl 32,15). Que o olhar do Pai nos cative e transforme. Quanto amor nos olhares do Pai. Que esta manifestação de amor nos dê olhos novos que brotam de um coração novo. Abramos as portas do coração a Deus e se possível façamos uma troca de corações, ou seja, que nosso coração deixe-se olhar e acolha o olhar do Pai, pois, somos a pupila de seus olhos.
Deus desvia o seu olhar do pecado, mais ainda, esquece nossos pecados, apaga-os na imensidão de sua misericórdia. Foi com amor misericordioso que Jesus olhou para Pedro, perdoando a traição. Quanta consolação temos em saber acreditar que Deus desvia o olhar do pecado e fixa com amor o pecador, para reatar a aliança, a amizade, a reconciliação.
Possamos nós olhar a realidade com os olhos de Deus. Nossa visão não é global, mas, o olhar de Deus possibilita-nos ter uma cosmovisão mais real da vida e da história até o dia em que o veremos face a face. Ele enxugará toda lágrima de nossos olhos.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina





