Eucaristia e dignidade humana
Receber a Eucaristia é uma grande honra, um grande apreço de Deus por nós, um inestimável dom que nos eleva. Felizes nós os convidados que nos sentimos honrados e dignificados pela graça da Eucaristia. Comungar é um dom imerecido que confere ao cristão uma dignidade incomparável. Somos transformados naquele que recebemos, tornamo-nos contemporâneos, concorpóreos e consanguíneos de Cristo, consortes da natureza divina. Com Ele somos um só ser, uma só coisa, um só espírito. A Eucaristia é elevação e promoção da dignidade humana.
Na ceia eucarística Cristo recebe a cada um de nós, intensifica sua amizade conosco. É Ele que nos assimila. A todos os que comungam o Senhor diz: ''Sois ossos de meus ossos, carne de minha carne''. O Senhor nos torna dignos para estar na sua presença e sentar a sua mesa. Somos seus convivas, seus comensais. O Senhor não só está conosco, como prometeu, mas dentro de nós. Dignificados pelo Senhor iremos respeitá-lo nos irmãos especialmente nos pobres e reconhecer sua dignidade. É indigna a Ceia do Senhor onde há indiferença fraterna e atenção aos pobres. A Eucaristia nos torna defensores e profetas da dignidade humana.
No sacramento do altar, Cristo se confia a si próprio a cada um de nós. Nossa resposta deve ser amor e gratidão. Somos sacrários, tabernáculos, ostensórios do Senhor. Em cada comunhão estamos ressuscitando. Jesus comunga nossa vida, nosso cotidiano e enriquece-nos de incomparável dignidade. Ele quer ser nosso contemporâneo e companheiro de peregrinação. A nossa vida passa a ser nossa missa. O ato de comungar é um ato de elevação e promoção humana. Quanto assombro, admiração, gratidão e arrebatamento emergem da Eucaristia. Nossa vulnerabilidade é transformada em bênção. O Senhor nos tira do lixo e nos faz sentar entre os príncipes, sentar a sua mesa.
A Eucaristia é assim impulso de promoção humana, de respeito pela comum dignidade de todos os seres humanos, de globalização da solidariedade e de esforço de inculturação. Quanta humildade e quanta elevação humana em Deus demonstra no mistério da Eucaristia. O corpo do Senhor dado e seu sangue derramado é para o bem, a salvação, a libertação e humanização do homem.
A Eucaristia é o tesouro que a Igreja recebe de seu esposo como penhor de imenso amor. Há um amor esponsal na Eucaristia onde nossa união com o Senhor faz de nós um só espírito com Ele. A ceia traz em si o valor da intimidade, da amizade, da confidência. A dignidade humana recebe da Eucaristia uma magnificação inaudita enquanto somos comensais e convivas da mesa do Senhor, seus familiares. Esta dignidade é ressaltada pelo dom imerecido e inaudito da comunhão do corpo e sangue de Jesus vivo e glorioso. A vida na glória já é antecipada principalmente na Eucaristia. Que então o corpo humano não seja humilhado, prostituído, discriminado, torturado. Não haja fome, nudez, exploração. Fomos comprados, resgatados pelo sangue de Jesus. Eis o nosso preço. ''Reconhece oh cristão a tua dignidade'' (Leão Magno).
A pessoa humana é única criatura que Deus quis por si mesma. Na Eucaristia Jesus se faz devoto da pessoa humana e nossa carne se tornou a chave e o chão da salvação. Deus é encontrado em nossa carne. Somos a irradiação da glória do Senhor. Cada pessoa tem direito à boa fama, à honra, ao respeito pela sua dignidade, direito à privacidade. Somos ostensórios da glória do Senhor, refletimos como num espelho esta glória de Jesus (II Cor 3,18), somos seu perfume (II Cor 2,4). A tudo isso chamamos de divinização do homem. Em cada Eucaristia vamos nos cristificando e divinizando sempre mais até chegarmos face a face onde seremos coroados na glória eterna, no fim que não terá fim. O amor jamais acabará.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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