ESPAÇO ABERTO
A era virtual
A maior maravilha científica foi a descoberta da eletricidade. Acarretou um salto fenomenal da sociedade humana, em nosso modo de vida. No campo tecnológico, a eletrônica é a base na esmagadora maioria das invenções e inovações. A partir da energia elétrica o mundo se tornou urgente e o modo de vida social passou a se revolucionar num ritmo acelerado. O rádio e a televisão foram as principais invenções que contribuíram para isso. Até a era da informática.
Se a partir da era eletrônica as mudanças se aceleraram, com a informática a sociedade deu um salto de evolução enorme. Com a popularização da internet o salto foi gigantesco. O advento da internet obrigou novos arranjos em todos os campos da vida social. O aprendizado, o comércio, o namoro, o sexo, toda forma de arte e entretenimento, tudo teve que ser reinventado numa velocidade como jamais visto, porque as formas tradicionais de todas estas expressões sociais ruíram, foram abaladas na sua estrutura.
O mundo natural perdeu terreno para o mundo virtual. Se existia ainda um resquício de romantismo na comunicação humana, a internet deu a última vassourada, dando lugar à praticidade, à rapidez e à racionalidade exacerbada. Com os tentáculos vorazes, como outrora fora o capitalismo, a internet chegou aos rincões do planeta, mudando radicalmente costumes, turbinando modos de fazer, derrubando paradigmas, desmontando culturas, liquidando resquícios de tradições, tornando ultrapassado tudo o que era moderno ainda ontem.
Com a velocidade que a nova ordem da informática e da internet imprimiu às mudanças, a necessidade de aprendermos o novo, de nos reinventarmos para dar conta de acompanhar as novas exigências, tornou-se uma corrida sem fim e criou uma crise de capacitação humana na mesma proporção às causadas nas demais esferas das relações sociais. Se, por um lado, a rede internacional de comunicação nos possibilita acompanhar os acontecimentos de qualquer lugar do mundo em tempo real, por outro, nos deixa continuamente desatualizados, pela gama de informações que nos oferece. É quase impossível estar em dia com as informações; é humanamente impossível absorver todas as informações. Por isso, como nunca antes na história, corremos atrás das mudanças, nos embaralhamos em meio ao caos cultural causado pela quase fundição entre o velho e o novo.
Os fenômenos da era moderna nos conduzem para a total racionalidade em todas as formas das relações humanas. A queda do encantamento que determinava a sociabilidade, iniciada nos movimentos do Renascimento, da Reforma Religiosa, do Humanismo e do Iluminismo, acentua-se progressivamente, dando lugar a uma nova ordem: a do utilitarismo frio e do egoísmo extremo.
Entretanto, o advento da internet apresenta uma realidade distorcida: a facilidade de comunicação que as redes sociais possibilitam parece formar uma rede de solidariedade sem precedentes. Como num toque de mágica, nos permite interação com os entes queridos, compartilhando imagens daqueles que estão distantes ou os que não estão mais entre nós. Mas ela revela também a nossa mesquinhez. Por este canal de comunicação gritamos ao mundo as coisas do amor, como se amar de modo abstrato bastasse, sem as ações concretas. Escrevemos frases bonitas, de efeito, como se falar bastasse, sem as ações concretas. Filosofamos sobre a moral, os bons costumes e o caráter, mas sem as ações concretas se tornam filosofias vazias. Falamos das coisas de Deus, da nossa religiosidade, como se ajoelhar e orar, apenas, bastasse, sem as ações concretas.
A internet, essa revolução tecnológica, será um marco divisor da história. Ela nos oferece benefícios incalculáveis em qualquer esfera do conhecimento humano; ajuda muito, quando temos todas as informações disponíveis. Também nos momentos de solidão, quando vemos as fotos dos que amamos, quando lemos as coisas do amor, as frases bonitas, as filosofias, as coisas de Deus. Vamos continuar usufruindo das coisas boas da internet, mas vamos manter o encantamento lindo e insubstituível do contato humano.
JOSÉ ROBERTO DOS SANTOS é bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina





