ESPAÇO ABERTO
Isaac, perfil de um filho
Isaac é filho de Abraão. Nasceu quando os pais já eram velhos. Sara sua mãe era estéril e não acreditava que teria um filho na velhice e por isso riu quando Deus prometeu um filho a Abraão. Isaac quer dizer ''filho da risada'', portanto, da alegria. Ele nasce por obra de Deus, que fecunda os estéreis. Agora Isaac é o ''sorriso de Deus'', alegria de seus pais. O filho é o sorriso dos pais. Isaac é o tesouro, a segurança, a esperança da família. Os filhos são alegria de Deus e da família. O nascimento de um filho traz grande alegria. Quando Jesus nasceu, foi grande a alegria (cf. Lc 2, 10-11). Não tenhamos medo de ter filhos.
Quantos casais estéreis engravidaram pelo poder da fé. A estéril se torna mãe de muitos filhos, reza o salmista. Deus tem o poder de criar do nada, de ressuscitar mortos e de dar fecundidade a quem é estéril. Em nossas esterilidades afetivas, psicológicas, espirituais Deus atua poderosamente e nos tornamos fecundos.
Isaac é filho de pai importante. Geralmente, os pais importantes são ausentes e seus filhos sentem-se órfãos, abandonados. Vão procurar segurança na religião, nas normas, nas instituições, admiram homens fortes, viram dependentes dos gurus, seguem os conservadores. São filhos inseguros que buscam segurança nos outros, portanto, tímidos, sem força. Isaac não vai à procura da noiva, mas envia um servo. Ele permanece ligado à mãe e depois é dominado por Rebeca sua esposa. Acaba perdendo seus dois filhos Esaú e Jacó. Aquele revoltou-se contra o pai, este, fugiu de casa. Pais desajustados têm filhos problemáticos. Famílias boas passam por grandes problemas.
Isaac é filho único. Hoje os filhos únicos são um fenômeno mundial porque aumentam cada vez mais. Estes filhos têm propensão a serem frágeis, caprichosos, tímidos, mimados e tirânicos. Crescem isolados e inseguros, gostam dos relacionamentos virtuais (internet), iniciam cedo sua atividade sexual. Sofrem dificuldades de relacionamento e adaptação. Tudo isso faz parte da ''síndrome do filho único''. Como é bom ter irmãos.
Isaac, com todas as suas limitações é abençoado por Deus. Seus problemas foram oportunidades de crescimento. Assim acontece conosco nossas cruzes tornam-se luzes, as feridas e fraquezas nos jogam nos braços de Deus e nos tornam compassivos. Deus pode transformar pedras em filhos de Abraão, ensinou Jesus. O ser humano tem possibilidade de cura e recuperação. A fé transporta montanhas. Conhecemos tantos santos que tiveram um passado marcado por limitações, fraquezas e pecados. Isaac é pessoa limitada, mas abençoada.
Os filhos de pais ausentes podem sofrer distúrbios na sua identidade masculina. O feminino parece-lhes como ameaça e as mulheres serem vistas como mães, como protetoras. Isaac, por ser temente a Deus, casou-se, teve filhos, mas, apegou-se a Esaú que era forte, peludo, raivoso, caçador. Estas são características de masculinidade. Apego a um dos filhos pode ser compensação das limitações dos pais.
Isaac casou-se aos 40 anos. Aos 60 anos tornou-se pai embora sua esposa fosse estéril. Ela engravidou graças à oração do marido. Seus filhos são gêmeos e brigam desde o seio materno. Com tantos problemas familiares, Isaac não abandona nem se afasta de Deus. A vida de Isaac é cheia de provações, mas, a mão de Deus estava com ele desde sempre. Ele tão frágil e defeituoso é o canal da bênção e da promessa feita por Deus a seu pai Abraão: serás pai de uma multidão de filhos tão numerosa como as estrelas do céu e os grãos de areia das praias.
Deus escolhe o que é fraco, vil, desprezível, os que nada são, para confundir os fortes, os sábios, os nobres, os poderosos. Esta é a velha política de Deus: fazer maravilhas com os pequeninos, desqualificados, fracos e defeituosos. A Deus nada é impossível e tudo é possível ao que crê. Eis o que faz o onipotente, Deus da vida, da esperança e de toda consolação. Ele transforma nossas pessoas e nossas famílias.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina





