O coração de Jesus aberto pela lança na cruz evoca o coração aberto de Deus Pai. O primeiro ato de abertura do coração de Deus é a criação com sua beleza, sabedoria e ordem. Do coração do Criador transborda o dom da criação. Olhando a natureza percebemos como é o coração de Deus por dentro. É puro amor, bondade, comunicação.
Deus continuou abrindo seu coração, comunicando-se pessoalmente conosco. Este fato chamamos de revelação. Deus fala de si, mostra o seu interior, seu plano, sua intimidade, seu coração. Se abriu a nós por amor. Deus mostra-se, aproxima-se de nós e fala conosco como a amigos.
O máximo amor do coração de Deus está em ter enviado ao mundo seu filho, Jesus Cristo. Vendo a Jesus vemos o coração de Deus, seu amor que se faz visível, no Verbo feito carne, torna-se como nós, carrega nossos fardos, percorre nossos caminhos, vive a nossa solidão e sofrimento. O coração de Deus se abre, se mostra e fala ao mundo através do seu filho e deixa-se encontrar e experimentar na história, nos acontecimentos.
Os profetas antigos revelam que o coração de Deus se comove ao pensar em nós. Oséias, Isaías, Jeremias, Sofonias descrevem os sentimentos divinos. Deus tem um coração materno, enamorado, sensível, cheio de ternura, misericordioso e providencial. Os salmos proclamam que Deus ''em sua ternura abraça toda criatura''. Ainda mais, que ''transborda em toda terra o seu amor'' ele nos ''cerca de carinho e de cuidados''. É Deus que ergue-nos do chão, tira-nos do lixo, lava nossas feridas, carrega-nos ao colo, acolhe-nos sob suas asas, esquece nossos pecados, segura-nos com laços de amor, é nosso aliado e companheiro. Eis o coração de Deus.
Impressionante é a afirmação do profeta Sofonias: ''O teu Deus está no meio de ti como um herói que salva. Ele exulta de alegria por tua causa, renovar-te-á por seu amor, Ele se comove por tua causa com gritos de alegria'' (cf 3, 17-18). Como é bom sabermos que somos a alegria de Deus.
As noivas poderão esquecer seus enfeites, as mães poderão esquecer seus filhos, mas, Deus nunca se esquecerá de nós atestam os profetas. É mais fácil as montanhas virarem pó que Deus afastar-se de nós. Resta-nos abrir as portas do nosso coração ao amor de Deus. O melhor modo de agradecer tanto amor é amar o próximo, incluindo o inimigo. Só os amados mudam. Só os amados amam. Senhor reza o salmista, ''eu confio esperando no teu amor''. Crer é confiar e confiar-se ao amor de Deus, ao seu coração.
Os místicos fazem a experiência do amor enamorado de Deus por suas criaturas e seus filhos e filhas. Deus é Todo-Poderoso, mas, uma coisa Ele não pode fazer: deixar de nos amar. O amor do coração de Deus é incondicional, sem medidas, inefável, irrevogável.
Outra revelação do coração divino está na aliança que Ele selou com a humanidade. Deus é nosso aliado, parceiro, amigo, confidente. Confia em nós mesmo sabendo que somos frágeis, incoerentes, infiéis. Ele quer nos salvar e faz de tudo nesta intenção, enviando até nós seu filho amado e o Espírito Santo que é puro amor. Aliança é amizade, parceria, confiança, companheirismo. Deus está do nosso lado, conosco, em nós. O cristianismo não é uma religião do medo, mas da confiança e do amor do Pai. Não somos anônimos, impessoais, desconhecidos perante Deus. Ele sabe o nosso nome porque nos quis e nos criou. Cada ser humano é um ''milagre de Deus'' (Bento XVI), pois suas mãos nos plasmaram como reza o salmista (Sl 119,73).
O Pai Criador está sempre nos recriando, refazendo, recuperando. Deus mora em nosso coração. Há no ser humano o desejo, a procura, a abertura para Deus. Podemos estabelecer uma relação pessoal e filiar com o Pai. Isso plenifica o nosso coração.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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