ESPAÇO ABERTO
DPOC: prevenir é melhor que remediar
A sigla com quatro letras a maioria das pessoas já ouviu falar, mas quantas podem dizer que sabem seu significado? Mais do que reconhecer o que cada letra representa, é preciso compreender a importância que a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) ocupa nos cenários mundial e brasileiro de saúde pública.
Para se ter uma ideia da relevância desse tema, vamos a alguns números. A projeção da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que a DPOC se torne a terceira maior causa de morte no mundo até 2030, perdendo apenas para o acidente vascular cerebral (AVC) e a doença isquêmica do coração. No Brasil, onde acomete atualmente oito milhões de pessoas, a DPOC já responde pela morte de 33 mil pessoas por ano.
Mas, afinal, o que é a DPOC? É uma doença respiratória progressiva e sem cura, que se manifesta, principalmente, em adultos com mais de 40 anos. É decorrente, na maioria dos casos, do tabagismo e da fumaça de fogão a lenha. Embora seja tratável, a DPOC causa lesão pulmonar irreversível e compromete a qualidade de vida dos pacientes. Como consequência, mesmo tarefas simples do dia a dia, como tomar banho, vestir-se, caminhar ou subir um lance de escadas tornam-se barreiras quase intransponíveis nos estágios mais avançados da doença.
Outro aspecto é o impacto da doença no sistema de saúde. As crises que acometem os pacientes são responsáveis pela maior parte dos custos, em razão de consultas médicas, ida a pronto-socorros e internações. De acordo com o Datasus, em 2009 foram 124.800 internações por DPOC a um custo aproximado de R$ 86 milhões.
Assim como os cardiopatas, dotados de elevado risco de ter ataques cardíacos, causados pelo infarto do miocárdio, arritmias ou insuficiência cardíaca, os portadores de DPOC têm elevado risco de ''ataque pulmonar'', ou seja, as crises de falta de ar.
Diante desse cenário, sociedades médicas de todo o mundo têm somado esforços para uniformizar a definição de DPOC e alinhar as diretrizes terapêuticas, facilitando diagnóstico e tratamento. Em 2011, a diretriz conhecida como GOLD - The Global Initiative for Obstructive Lung Disease - recebeu a terceira atualização, face às muitas novidades que surgiram, principalmente em relação aos estágios da doença, abordagem do histórico clínico do paciente e novos tratamentos.
O novo GOLD preconiza uma abordagem mais individualizada embasada no histórico clínico do paciente e passa a considerar, além da capacidade respiratória, o risco de crise como um fator importante para determinar o tratamento mais adequado para cada indivíduo. As versões anteriores classificavam os pacientes com base exclusivamente na função pulmonar.
Essa nova perspectiva de tratamento valoriza a individualização, coloca em destaque a prevenção das crises e oferece maior liberdade de tratamento anti-inflamatório para os pacientes com exacerbações frequentes, independentemente da função pulmonar que apresentem.
Recentemente, o Ministério da Saúde abriu uma consulta pública para validar o protocolo clínico de DPOC. Nossa diretriz considera apenas os tratamentos mais básicos, mas a iniciativa deverá ter um impacto positivo na qualidade de vida dos pacientes e contribuir para a redução do importante impacto social causado pela DPOC.
Por fim, é importante deixar claro que a DPOC pode ser prevenida. Uma boa forma de se fazer isso é evitar o tabagismo e a inalação de poluentes. Além disso, os tratamentos atualmente disponíveis aliviam os sintomas, tratam a inflamação e ajudam a evitar as crises, permitindo aos pacientes participar plenamente da vida diária. Em outras palavras, o dito popular ''prevenir é melhor do que remediar'' nunca foi tão bem aplicado.
OLIVER A. NASCIMENTO é médico de Pneumologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e vice-diretor do Centro de Reabilitação Pulmonar da Unifesp/Lar Escola São Francisco (LESF)





